Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Vi-a sim ; e repito que é moça e bella.
— Mas desenxavida... pretenciosa...
— Também não ; é espirituosa e modesta.
— Então agora acertei: depois que a viste e a conheces, a tua razão, que é calculista como agiota, te esta de continuo cantando aos uvidos aquella velha cantiga que acaba assim :
Casar com mulher sem dote é remar contra a maré.
_ Ainda te enganas : ella é tão rica como eu.
— Em tal caso dou as mãos á palmatoria, e confesso que não decifro o enigma.
Constando pensou um momento, e depois disse :
— Visto que sempre terei de te contar o fim da historia, tanto faz hoje como sabbado.
— Digo-te que estás criando juizo, Constando.
— Passeiemos.
Dei-lhe o braço : começámos a passeiar e elle tomou logo a palavra.
— Creio que não preciso dizer-te que domingo não faltei á exposição dos objectos offerecidos pelas senhoras a favor da pobreza. Eu ! eu, que estou habituado a levantar-me da cama ás dez horas do dia, fui domingo amanhecer á porta da Academia das Bellas Artes: jejuei até e pela primeira vez na minha vida, pois sahi de casa sem me lembrar de almoçar. O amor e a politica, tirando ambos igualmente o juizo ao homem, tem um notavel ponto de dissimilhança: o amor sacrifica a barriga ao coração, e a politica de muita gente é um sacrifício do coração á barriga.
— Não te afastes da questão principal, Constancio.
— Emfim !... estava lá ! ........ descobri finalmente a minha querida bolsa de seda entre os interessantes objectos expostos ! reconheci-a logo... immediatamente : era ella mesma, era a bolsa de seda !
— Que rapaz afortunado !
— Foi minha, e havia de sel-o por força ! eu teria preferido aquella simples bolsa de seda á propria Estrella do Sul, ou á Montanha da Luz !
— Parolas de namorado.
— Em uma palavra, achei-me de posse da minha bolsa de seda, e apenas a vi nas minhas mãos, esquecendo a exposição, e não querendo saber de mais nada, atirei-me para casa a galope.
— A galope ?. . penso que deves retirar a, expressão, Constancio.
— De modo nenhum : a palavra foi admitida ha alguns annos nos mais brilhantes salões; não havia ninguém que pretendesse as honras do grande tom, que não galopasse nos bailes; por consequencia, não retiro a expressão e repito, galopei.
— Perfeitamente !
— Entrei por nossa casa enthusiasmado e delirante, bradando : « eil-a aqui! eil-a aqui!... » minha mãe e minha irmã acudírão aos meus gritos ; mostrei-lhes a minha suspirada bolsa ; era de seda verde (tinha a côr da esperança e primorosamente trabalhada. Minha mãe achou-a perfeita , e minha irmã, depois de examinal-a cuidadosamente, depois de vi-ral-a e reviral-a umas poucas de vezes de dentro para fora e de fora para dentro, tornou-me a entregar a minha encantada bolsa de seda, contentando-se com fazer um bico).
— Um bico !...
— Sim, um momo : as moças quando, depois de examinarem uma obra, um trabalho devido á habilidade e delicadeza de outra moça, não lhe põem defeitos, e acabão fazendo simplesmente um bico, é porque não tem nada, nada absolutamente que dizer.
— Bravo ! és um novo La Bruyère.
— Eu tinha jurado não me separar mais nunca da bolsa de seda ; guardei-a pois junto do coração no bolso do peito da casaca.
— E foi muito justo que guardasses uma bolsa por cima do coração; porque o coração dos homens bate de ordinário por baixo da algibeira, e a algibeira não é cousa melhor do que uma bolsa.
— Estava emfim senhor da bolsa de seda faltava-me porém ainda saber quem era a bella mysteriosa: na exposição eu havia perguntado debalde e em vão procurado descobrir qual a senhora que tinha offerecido a bolsa de seda verde: perdi o meu tempo: ninguém sabia, ou ninguém me quiz responder. Não desanimei; no meu galope para casa delineei um plano admirável, que me devia fazer penetrar o segredo que me roubava e escondia o nome de minha apaixonada ; jurei a mim mesmo que antes da noite saberia o nome da bella mysteriosa, e decifraria a difficil charada ; mas de que se havião de lembrar minha mãe e minha irmã ! determinarão ir ver o balão aerostatico, e apezar de tudo quanto disse e das observações que fiz, teimarão e declarárão-me em estado de sitio por todo o resto do dia.
— Sim ; mas...
— Fomos ver o tal balão : ás 3 horas achavamo-nos installados nos nossos logares da primeira ordem e o demoninho de minha irmã, que encontrou logo quatro ou cinco camaradas tão demoninhos como ella, ajuntou-se com ao amigas e, fallando todas a um tempo, disserãs cobras e lagartos contra a minha bella
mysteriosa; mas eis que de repente cáe a estaca que suspendia o balão, fura-se este o povo grita e se amotinae...
— E ficas tu em disponibilidade e aproveitas a
tarde.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.