Por Martins Pena (1846)
PAULINO – Quem me acode? Quem me socorre?
PEDESTRE, arrancando-o do armário e puxando-o para frente da cena – Oh, és tu? O algoz da minha honra, da minha tranqüilidade!
PAULINO, trêmulo de susto – Eu não senhor, não senhor!
PEDESTRE, pondo-lhe o boné na cabeça – Este boné é teu... e esta cabeça é minha!
PAULINO – Ai, ai, ai!
PEDESTRE, furioso – Ah, tu pensavas que havias de entrar no asilo conjugal pelo telhado, para roubares ao marido o seu bem! Ah, contastes com a minha fraqueza!
Tu vais morrer na maré da noite!
PAULINO – Ai, ai, quem me acode?
PEDESTRE – Podes gritar. Tenho o direito de te matar. Vou arrancar-te esse coração... Grita... e morre!
PAULINO, por um movimento rápido, desprende-se das mãos do Pedestre e corre pela sala, gritando – Ai, ai, quem me acode? Querem-me matar!
PEDESTRE o segue de perto – Não me escaparás; hás de morrer! (Atira uma estocada em Paulino, pelas costas.) Morre!
PAULINO, deixando-se cair ao chão de bruços, com os braços estendidos – Ai, estou morto!
PEDESTRE, parando repentinamente – Morto! Também ele! Matei-o! (Deixa cair a espada, trêmulo, e vem assentar-se junto à mesa, e aí permanece por alguns instantes, silencioso. Paulino, enquanto o Pedestre caminha para a mesa, e durante o tempo que aí demora-se sentado, levanta a cabeça e observa.. Pedestre, depois de alguns momentos de silêncio:) Fiz o que devia.
PAULINO, à parte – E eu também...
PEDESTRE, levantando-se, pensativo – Nasce o homem tranqüilo e inocente e depois faz duas mortes... Duas mortes! Fado e destino da humanidade! (Caminha para junto de Paulino, que se conserva imóvel.) Vil sedutor, cadáver aborrecido! (Empurra-o com o pé e ele rola.) Ressuscita outra vez, que te quero ainda matar de novo, cevar-me no teu sangue, arrancar tuas tripas! Oh, ressuscita outra vez!
PAULINO, à parte – Assim era eu tolo!
PEDESTRE – Minha vingança está satisfeita; dormirei tranqüilo... Tranqüilo? Mas a forca? A forca! Oh, que nem dela me lembrava! Oh, por que levantou a justiça este horrível fantasma entre o homem e a sua legítima vingança? Oh, bem se vê que quem inventou o Código e a forca não tinha mulher que o traísse... Que farei? Como ocultar estas duas mortes, como esconder estes dois corpos, que farei? Ah! (Como ferido de uma idéia repentina, corre para o quarto aonde está Alexandre e sai.)
PAULINO, levantando a cabeça com cautela e espiando – Foi-se... O que iria fazer? Se a chave estivesse na porta, eu metia pernas... Mas o endemoninhado a tirou... O melhor é continuar a fingir-me de morto. Mas que diabo quererá ele fazer do meu corpo? Ora, é bem feito, para eu não [me] meter em camisas de onze varas, saltar telhados e bolir com as mulheres dos outros. Se escapar desta, podem todos os que têm mulheres dormirem com as portas abertas, que eu abrenuntio... Ele aí vem... Estou morto...
CENA X
Entra o PEDESTRE, conduzindo por uma mão ALEXANDRE e tendo na outra um saco.
PEDESTRE, para Alexandre – Nem uma palavra, e faze o que eu te mando; do contrário, mato-te como o matei... (Apontando.)
ALEXANDRE, assustado, vendo Paulino – Ah!
PEDESTRE – Então?
ALEXANDRE, à parte – É alta noite, e eu só com este desalmado, em sua casa...
PEDESTRE – Decide-te!
ALEXANDRE – Sim sinhô. (À parte:) O melhor é obedecer-lhe e ver se me
safo...
PEDESTRE – Vem cá. É preciso metê-lo neste saco, ajuda-me. (Ambos principiam a meter Paulino dentro do saco. Durante esta operação, Pau1ino conserva toda a aparência de um corpo morto.) Anda mais depressa, não tremas. Ele ainda está quente... Patife! Assim metido no saco, tu o levarás às costas e o lançarás ao mar. (Tirando uma corda da algibeira:) Amarremos a boca do saco. (Amarram a boca do saco.) Eu te acompanharei até a praia; depois dar-te-ei a liberdade... Bom, está amarrado. Agora espera um instante, enquanto vou ver se alguma ronda se aproxima, ou se passa alguém pela rua. (Sai pelo fundo e fecha a porta por fora.)
CENA XI
ALEXANDRE e PAULINO metido no saco.
ALEXANDRE – Fecha a porta... e deixa-me só com um homem morto! Mas quem é este homem? Por que o matou ele? Oh, tenho os cabelos arrepiados... Só com um cadáver! Que vim eu aqui fazer? Que horrível noite! E Balbina? Está junto da madrasta também morta... Oh, que terrível pedestre! O que farei, o que farei?
PAULINO, dentro do saco, sentando-se – Fugirmos...
ALEXANDRE, recuando, espavorido – Ah!
PAULINO, no mesmo – Não se assuste, que eu estou vivo...
ALEXANDRE – Vivo!
PAUL1NO, no mesmo – Sim, sim. Pois não ouve que estou falando?
ALEXANDRE, aproximando-se – Ah!
(continua...)
PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.