Por Machado de Assis (1906)
— Por que não crê?
D. HELENA
— Porque o vejo amável.
BARÃO
— Suportável apenas.
D. HELENA
— Demais, imaginava-o uma figura muito diferente, um velho macilento, melenas caídas, olhos encovados.
BARÃO
— Estou velho, minha senhora.
D. HELENA
— Trinta e seis anos.
BARÃO
— Trinta e nove.
D. HELENA
— Plena mocidade.
BARÃO
— Velho para o mundo. Que posso eu dar ao mundo senão a minha prosa científica?
D. HELENA
— Só uma coisa lhe acho inaceitável.
BARÃO
— Qual é?
D. HELENA
— A teoria de que o amor e a ciência são incompatíveis.
BARÃO
— Oh! isso!
D. HELENA
— Dá-se o espírito à ciência e o coração ao amor. São territórios diferentes, ainda que limítrofes.
BARÃO
— Um acaba por anexar o outro.
D. HELENA
— Não creio.
BARÃO
— O casamento é uma bela coisa, mas o que faz bem a uns, pode fazer mal a outros. Sabe que Mafoma7 não permite o uso do vinho aos seus sectários? Que fazem os turcos? Extraem o suco de uma planta, da família das papaveráceas8, bebem-no, e ficam alegres. Esse licor, se nós o bebêssemos, matar-nos-ia. O casamento, para nós, é o vinho turco.
D. HELENA, erguendo os ombros
— Comparação não é argumento. Demais, houve e há sábios casados.
BARÃO
— Que seriam mais sábios se não fossem casados.
5 Ciência da classificação. O mesmo que taxionomia.
6 Parte da ciência que cuida da classificação dos vegetais.
7 Denominação arcaica do profeta Maomé, fundador do Islamismo.
8 Trata-se do ópio (papaver somniferum).
D. HELENA
— Não fale assim. A esposa fortifica a alma do sábio. Deve ser um quadro delicioso para o homem que despende as suas horas na investigação da natureza, fazê-lo ao lado da mulher que o ampara e anima, testemunha de seus esforços, sócia de suas alegrias, atenta, dedicada, amorosa. Será vaidade de sexo? Pode ser, mas eu creio que o melhor prêmio do mérito é o sorriso da mulher amada. O aplauso público é mais ruidoso, mas muito menos tocante que a aprovação doméstica.
BARÃO, depois de um instante de hesitação e luta
— Falemos da nossa lição.
D. HELENA
— Amanhã, se minha tia consentir. (Levanta-se.) Até amanhã, não?
BARÃO
— Hoje mesmo, se o ordenar.
D. HELENA
— Acredita que não perderei o tempo?
BARÃO
— Estou certo que não.
D. HELENA
— Serei acadêmica de Estocolmo?
BARÃO
— Conto que terei essa honra.
D. HELENA, cortejando
— Até amanhã.
BARÃO, o mesmo
— Minha senhora! (D. Helena sai pelo fundo, esquerda, o barão caminha para a direita, mas volta para buscar o livro que ficara sobre a cadeira do sofá.)
Cena X
Barão, D. Leonor
BARÃO, pensativo
— Até amanhã! Devo eu cá voltar? Talvez não devesse, mas é interesse da ciência... a minha palavra empenhada... O pior de tudo é que a discípula é graciosa e bonita. Nunca tive discípula, ignoro até que ponto é perigoso... Ignoro? Talvez não... (Põe a mão no peito) Que é isto? (Resoluto) Não, sicambro9! Não hás de adorar o que queimaste! Eia, volvamos às flores e deixemos esta casa para sempre. (Entra D. Leonor.)
D. LEONOR, vendo o barão
— Ah!
BARÃO
— Voltei há dois minutos; vim buscar este livro. (Cumprimentando) Minha senhora!
D. LEONOR
— Senhor barão!
BARÃO, vai até a porta e volta
(continua...)
ASSIS, Machado de. Lição de botânica. Rio de Janeiro, 1906.