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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  Formava o edifício uma face da vasta quadra, onde se fora levantado sucessivamente casas para o administrador e feitores, senzalas para os escravos, o engenho de cana, a fábrica do café, tulhas de feijão e milho, além de outros acessórios do grande estabelecimento rural, que veio a tornar-se depois a fazenda das Palmas.  

Do terreiro da casa partia o caminho principal da fazenda, que se estendia pelo espigão da colina, e bifurcava-se de espaço a espaço para serventia das várias jeiras de lavoura. O ramo principal, fugindo os alagados e descrevendo uma grande curva, ia entroncar-se, a meia légua de Santa Bárbara, na estrada geral da Constituição a Campinas. 

  No ponto em que esse carreador transpunha o valado principal da fazenda, aí fechando também por uma tronqueira, um cavaleiro embuçado, oculto no carrasco, levou ambas as mão à boca e imitou o canto do curiau, soltando um apito longo e cheio; o mesmo que ouvira Inhá. 

  Imediatamente o próximo canavial ondulou, e surdiu na ourela um negro moço, com o corpo nu até a cintura e a camisa atada aos quadris à guisa de tanga. Os lanhos das faces indicavam a casta monjola do africano, em cujo rosto se desenhava a astúcia do gambá e alguma coisa do focinho deste animal. 

- Quem és tu? perguntou o cavaleiro vendo o negro dirigir-se a ele.  

- Monjolo, meu branco. Faustino mandou dizer a senhor que tudo se arranjou como ele prometeu. 

- Mas por que não veio ele mesmo? 

- Pois o branco não vê que ele está lá em casa ocupado! 

- Pedaço dum tratante! 

- Gente desconfia; então essa cambada de pajens e crioulos, que é mesmo da pele do cão. 

- O patife quer trapacear! 

- Branco está de orelha em pé; pois olha, Monjolo é negro de bem; quando ele dá sua palavra e aperta dedo mindinho, está acabado, é como rabo de macaco: quebra, mas não solta galho, por nada desta vida, nem que arrebente. 

- Anda lá, bruto, desembucha duma vez o recado, que não estou para aturar-te. 

- Ixe!... disse o preto fazendo um momo de pouco caso. 

- Falas ou não! 

- Que é que o senhor quer saber? 

- O diabo sempre vai hoje à vila? 

- Vai, meu branco; o diabo vai, mas não é capaz de cair no inferno, não!  

- Alguém o há de empurrar. A que horas sai ele da fazenda? É mesmo de manhã? 

- Não tarda. Cavalo já está selado; capanga só vai um, mofino como o quê! Os outros, Faustino arranjou, como branco sabe. 

- Então só leva duas pessoas? 

- Duas só, sim senhor. Paje e capanga. 

- Está bom; toma lá, para o pito, disse o cavaleiro atirando-lhe um pataco de prata. Agora vê se vais dar com a língua nos dentes. 

- Eh!... Monjolo mesmo!... Branco não conhece este negrinho da carepa, não!  Já não o ouviu o embuçado que, dando rédeas ao animal, afastou-se na direção da estrada geral. 

  Era acidentado o terreno, que atravessava esse caminho, cortado no maciço de uma mata virgem, tão exuberante, que todos os anos fechava com os renovos da vegetação a picada aberta no inverno. O solo aí, como em toda a cercania, cobre-se de uma crosta da argila roxa, afamada na província por sua espantosa fertilidade. Em verdade, quando se deixa Campinas, e a pata dos animais começa a triturar essa terra ferruginosa, tão fácil de converter-se em pó sutilíssimo como em profundo tremedal, a natureza muda de aspecto; arrea-se de galas, e aos campos tão monótonos, embora célebres, de Piratininga, sucedem os bosques frondosos de Piracicaba. 

  Não obstante ser o caminho em toda a sua extensão, desde a extrema da fazenda, coberto e sombrio, havia contudo um lugar, cujo torvo aspecto correspondia ao terror supersticioso que inspirava e à sinistra reputação que adquirira. 

(continua...)

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