Por José de Alencar (1872)
- Pois eu penso ao contrário que a consciência é indispensável à riqueza, justamente para contê-la e coibir os seus excessos. A pobreza tem para reprimir-se a própria fraqueza; mas a opulência, servida pela justiça e até cortejada pela lei, carece de um freio, a fim de não precipitar-se: esse freio é a consciência; não há outro.
- Bela teoria!... A moral prática é muito diferente!
- Não decores com este nome a tolerância do abuso e a transação cômoda que muita gente faz entre o seu interesse e o seu dever. A moral prática não pode ser outra coisa, senão a virtude nos atos da vida. Seriamente, me entristeço, Fábio, quando te vejo defender o que no fundo de tua alma reprovas, estou bem certo!
- Foi um gracejo!
- O ouro é a pedra de toque da consciência; o prumo que lhe sonda a profundidade. Creio que sou um homem honesto; mas não tenho a certeza disso, porque ainda não me vi à prova, entre os escrúpulos da probidade e os lucros certos de uma ação menos digna.
- Pois eu confio mais em ti, do que tu mesmo. Se por acaso o tal milionário, o Soares, te oferecesse vinte contos de réis para comprometeres a causa de alguns dos teus quatro clientes de meia cara, estou convencido que o repelirias com indignação!
- Também creio, replicou Ricardo sorrindo. Entretanto tu sabes o que vale esta soma para mim, para nós, Fábio.
- É verdade! Quando eu me lembro que para sermos felizes bastava-nos o que esse Midas ganha enquanto dorme a sesta!
- Exageras também!
- Dizem que ele tem um rendimento anual de mais de duzentos contos, o que dá vinte e cinco mil-réis por hora. Ora ele costuma dormir duas horas, e três quando janta feijoada; portanto aí tens, cinqüenta mil-réis, o que não ganharás, meu Ricardo, nem quando fores ministro e senador.
- Estás bem servido!
- Hás de ser! Mas vê o que é este mundo. Viste o cavalo do Cabo em que ia a Guida, um lindo isabel?
- É um bonito animal.
- Pois enquanto nós, dois cidadãos brasileiros, duas esperanças da pátria, vamos almoçar o magro café com pão, o tal fidalgo antes de sair a passeio já saboreou um pau de chocolate fino.
- Chocolate? Ora, Fábio!
- Não é brincadeira; chocolate marquis! Ah! tu não conheces a Guidinha. Um dia o tal cavalo do Cabo, que é delicado como um rapazinho da moda, constipou-se aqui na Tijuca, numa manhã de chuva, e sobreveio-lhe uma tosse. A menina entendeu que o seu querido isabel estava sofrendo do peito, e que portanto devia tomar chocolate todas as manhãs.
- É luxo que o nosso “Galgo” não lhe inveja.
- Sim, mas o teu “Galgo” chegando à casa, se quiser enxugar o corpo, há de rolar-se no chão: não tem como o fidalgo a seu serviço um criado, melhor pago do que dois advogados do nosso conhecimento. Esse criado, depois de enxugarlhe o corpo, com uma toalha de riço, veste-lhe uma camisa de brim de linho, mais fino do que o de minha calça. Isto quando o isabel não transpira; porque nesse caso vem uma garrafa de vinho para esfregar-lhe o pêlo: vinho generoso, como nós só bebemos uma vez por outra, nalgum banquete.
- Admira-me que andes ao fato de tudo isto!
- Compreendes! Moça bonita e rica!...
- É uma celebridade, como a Lagrange ou a Ristori; pertence ao público, que tem o direito de saber as particularidades de sua vida.
- Justamente; são os próprios amigos da casa que referem estas coisas como prova da graça e espírito da moça. Queres saber uma que me contaram há poucos dias?
- Dás tanta importância a esses caprichos?
- Rio-me; e acho uma fortuna quando os ricos nos divertem, e não nos afligem como tantas vezes sucede. Mas ouve, que é engraçado.
- Conta.
- Foi com o doutor... Um dos primeiros médicos da corte... Esquece-me agora o nome... o doutor...
- Não importa.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.