Por José de Alencar (1875)
A inquietação da mãe abrandou um tanto, mas não serenou de todo. Nessas ocasiões, quando um grande susto abala profundamente o coração, deixa uma incredulidade, que se não desvanece com palavras e muitas vezes resiste à própria realidade.
É só depois que ao coração, como ao lago revôlto pela tempestade, volta a bonança, que êle recobra sua limpidez, na qual espelha as celestes esperanças.
— Enquanto meus olhos não virem Flor, eu não fico sossegada, sr. Campelo.
O capitão-mór voltou-se para Agrela. Minha senhora dona já pode passar, disse o tenente.
Olá, o Xavier e o Benteví!
— Pronto! disseram dois sequazes acudindo à ordem do cabo.
— Ordena o sr. capitão-mór que acompanhem à casa a sra. D. Genoveva? perguntou Agrela.
— Ordenamos!
— Até logo, sr. Campelo. Não se demore; já basta de aflições.
O capitão-mór fez à mulher uma respeitosa cortesia, e enquanto ela se encaminhava à fazenda, tomou ao serviço que sua gente empreendera para atalhar o incêndio e salvar as matas vizinhas, ameaçadas de ficarem reduzidas a cinzas.
O trabalho avançara rapidamente a ponto de poder D. Genoveva atravessar para o outro lado sem necessidade de fazer grande volta. O aceiro aberto na direção da fazenda tinha cortado a tromba do incêndio que o vento impelia naquele rumo, de modo que não foi difícil ilhá-lo nessa porção de terreno já devastada, onde brevemente, consumido pela chama todo o combustível, começou a apagar-se, ficando apenas o brasido.
Todavia, não era prudente abandonar êsse imenso borralho, donde o vento a cada instante levantava enxames de fagulhas, que inflamavam-se no ar e podiam atear novamente o fogo no mato cheio de gravetos e chamiços.
Agrela não descansou enquanto não extinguiu de todo o fogo na largura de umas dez braças, e ainda assim postou de espaço a espaço vigias que aí deviam ficar durante a noite, para dar aviso de qualquer acidente, quando por si não o pudessem remediar.
Durante essa arriscada e árdua tarefa, a gente da escolta e do comboio não deixava de torcer-se com a impaciência de Agrela, mas alí estava o capitão-mór que não somente não se poupava para dar o exemplo, como não duvidaria esborrachar com um murro a cabeça do primeiro que respingasse contra o seu tenente.
Com pouco apareceu o refôrço da gente da fazenda, que avisada pela chegada de D.
Genoveva, corria em socorro e deu a última demão ao serviço.
— Podemos seguir, sr. capitão-mór, se V. S. não manda o contrário.
— Vamos!
Só então o capitão-mór Campelo resolveu-se a deixar aqueles sítios para dirigir-se à sua casa da qual se achava ausente havia meses, e a que tão a propósito voltara para salvá-la da ruína de que não escaparia com certeza, se o fogo continuasse com a violência em que ia.
Entretanto havia chegado D. Genoveva ao terreiro, onde a aguardava novo susto.
Toda a gente da casa, agregados e servos, apinhada no meio do pátio, em frente ao caminho, esperava ansiosa que aparecesse a cavalgada para recebê-la com as alvíçaras, toques e aclamações de prazer, que eram de uso em tais ocasiões.
D. Genoveva, apenas entrou no terreiro, sem atender às festas com que a saudavam, foi em altas vozes perguntando pela filha às primeiras pessoas que lhe saíam ao encontro.
— Flor?… onde está Flor!…
Esta pergunta instante deixou a todos surpresos. Não podiam compreender como a dona lhes pedia novas de uma pessoa, que devia estar a essa hora em sua companhia e chegar juntamente com ela e o marido.
A hesitação que se pintava em todos os semblantes, o espanto que já assomava nos gestos de alguns, lançou outra vez a mãe extremosa na mesma, senão mais cruel aflição.
— Minha filha!… gritou com um clamor de angústia. Não viram minha filha?… Ela não chegou?… Então, meu Deus, está morta! O fogo a queimou!…
A dama se arremessara da sela ao chão, e estorcendo os braços convulsos, arrancava os cabelos que se desgrenhavam revoltos pelas espáduas.
Nem uma das mulheres presentes, crias de sua casa e fâmulas, se animava a consolar a dôr suprema da mãe, que perdera a filha. Limitavam-se a acompanhá-la com o pranto e a velar sôbre ela, para ampará-la, se afinal desfalecesse com o atroz suplício.
Foi o capelão, o padre Teles, quem no exercício do santo ministério dirigiu palavras de
confôrto à mãe aflita.
— Lembre-se a dona que mais sofreu a mãe de Cristo, vendo seu filho não só morto e crucificado, mas coberto de baldões. E ela bebeu resignada êsse cálice de amargura!… Mas outro grito soou aí perto, que a todos estremeceu:
— Minha mãe!
Na janela da casa assomara o vulto de D. Flor, que também inquieta pela sorte dos pais a quem estremecia, soltava uma exclamação de desafôgo, avistando sua mãe.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.