Por José de Alencar (1873)
Ainda aquela atmosfera poenta não ressequira sua cútis, dando-lhe o tom desbotado do almaço nem a fadiga da vista lhe tingira de bistre as grandes olheiras como sucedia com seus companheiros, em cujo número os havia aliás de pouca mais idade.
Era justamente a ausência absoluta dessa máscara de cera, que tanto inquietava o tabelião e enchia-lhe o ânimo de suspeitas. Aquela massa não lhe parecia da espécie de que se fazem escreventes; muito curtida e sovada talvez não desse ainda assim para um mau carregador de autos.
— Se me sai daqui um dos tais garotos, que vivem a estropiar a escrita, para fazer uns pedaços de regras, que lá eles lhes chamam versos?
Era esse o grande susto do tabelião, que tinha a trova em conta de heresia, e estremecia de horror com a idéia de lhe estar dentro do cartório, a trasladar-lhe autos e instrumentos, um desses endemoninhados.
Uma beata de truz, em desobriga com um fradeco dengoso, recendendo a pivete, não o olharia com tamanha desconfiança, receosa de ver surgir-lhe debaixo do capuz a munheca do Tinhoso, como o Sebastião Ferreira espreitava o rapaz.
Que este não lhe entrara em casa muito de seu agrado, era cousa que logo se percebia. Alguma razão maior houve sem dúvida que levou o tabelião a tomar para seu cartório aquele “filhote de cigano”, como o chamava.
Não será demasia, já que estamos em cartório, tirar as inquirições do caso.
V
COMO SE AJEITAVA UM ENJEITADO NAQUELE SÉCULO PUDICO
- A sogra do nosso tabelião, a Sr.ª Romana Mência, era apontada entre as pessoas de maior devoção da cidade.
Além do terço que se rezava todas as semanas em sua casa, gostava a devota de fazer o presépio de Natal, e suas novenas pelo correr do ano.
Uma novena naquele tempo fazia as vezes da partida familiar em nossos dias. Emprazavamse umas tantas famílias do trato e conversa íntima da Sr.ª Romana com o fim de festejar algum santo por tenção especial.
Armava-se, o oratório, tirava-se para a frente a imagem do santo em cuja tenção era a novena, e durante oito dias, e à boca da noite, rezava-se a ladainha. Afinal chegava o dia da festa, em que havia luminárias e outras frandulagens.
Depois da reza, os velhos franceavam contando histórias do bom tempo que não volta, e recordando as rapazias que tinham feito. As devotas de respeito destrinçavam na vida alheia, mas sempre arrenegando dos mexericos dos noveleiros; as meninas fingindo escutar as mães, acompanhavam com o canto do olho os folguedos dos rapazes que saltavam no quintal, atacando foguetes ou fazendo sortes.
Afinal vinha a ceia, forte e suculenta, como precisavam para conciliar o sono os estômagos de nossos avoengos. Em vez do sorvete, chupava-se o excelente ananás e a laranja, e por volta das nove horas estavam todos recolhidos.
Uma das vizinhas da Sr.ª Romana tinha um enjeitado, que era estudante. Chamava-se o rapaz Ivo do Val, e fora achado uma noite à porta da casa, onde morava então com sua família, como donzela recatada, a Sr.ª Rosalinda das Neves, que veio a servir-lhe de protetora e mãe de criação.
Boquejou-se, embuste de praguentos, que o enjeitado não era outro senão o fruto dos amores da donzela com um alferes do terço da infantaria, vindo do reino. O oficial prometera casamento; mas para desempenhar-se de sua palavra honrada, esperava a licença de El-Rei, da qual aliás não carecera para o mais que adiantara por conta da futura boda.
Assim não chegando a pedida vênia, impetrada para Lisboa, e avultando à Rosalinda umas esperanças, que já lhe não cabiam no justilho, enquanto lhe minguavam as outras, que dantes lhe enchiam de abundâncias o coração, tomou a mãe da moça as devidas cautelas para tapar a boca aos praguentos.
A moça adoeceu de ruim achaque; e ao cabo de umas tantas semanas, lã em certa noite apareceu na soleira da porta a resmelengar, uma trouxa que não se soube donde vinha. Disse a gente de casa que a trouxera um rebuçado embaixo do ferragoulo, e mal ali pousou, logo deitou a correr.
Quem isso afirmava era a velha, que estava passando o seu rosário bem descansada, quando ouvira um grunhido na porta; e abrindo a rótula depois dos indispensáveis exorcismos e benzimentos, logo pôs em alvoroço a vizinhança, gritando:
— Abrenuntio! Abrenuntio!... Cruzes! Te esconjuro!
— O que é, comadre? perguntou-lhe a vizinha do lado.
— O porco sujo que me está fossando na porta, senhora!
— T’arrenego!
— E foi um maldito cigano que o trouxe! Eu bem o vi pelo buraco da rótula quando passou cosido num couro de bode e então deitava uma catinga de enxofre.
— Que me conta, comadre?
— É como lhe estou dizendo.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.