Por José de Alencar (1860)
JOANA - Já lhe saiu todo o buço.
VICENTE - Também ele já anda rastejando pelos vinte e um.
JOANA - Completou hoje, Bilro.
VICENTE - É verdade. - Ora tia Joana! Já estamos ficando velhos. Inda me parece. que foi outro dia que você dava de mamar a ele.
JOANA - Como me lembra!... Eu tinha dezessete anos, e tu eras um pirralho de oito. Vinhas bulir com ele no meu colo; e como eras muito travesso, nós te começamos a chamar de Bilro. Nunca estavas quieto!
VICENTE - E aquela vez que um sujeito fez-me por força levar-lhe um recado... Quando a gente é criança faz cada uma!
JOANA - Doeu-te o puxão de orelha que te dei?
VICENTE - Oh! se doeu!... Também nunca mais!
JOANA - E perdias teu tempo!
VICENTE - Lá isso eu sempre disse... Nunca houve mulatinha que se desse mais a respeito do que tia Joana. Pois em casa punham a boca em todos; mas dela não tinham que mexericar.
JOANA - Não fala mais nisso, Bilro. A gente tem vontade de chorar.
VICENTE - É mesmo, tia Joana. Bom tempo! Sr. doutor só fazia ralhar. Tirante disso, era bom amo.
JOANA - Tens tido notícias dele?
VICENTE - Depois que foi viajar, nunca mais soube por onde anda.
JOANA - E a comadre Rosa que ele vendeu a um homem da Rua da Alfândega?
VICENTE - Essa morreu... O André está cocheiro na praça.
JOANA - Cada um para sua banda.
VICENTE - Vou indo também para a minha. Adeus, tia Joana.
JOANA - Agora até quando?
VICENTE - Não sei! Hoje como tive que fazer por aqui, então disse cá com os meus botões: Deixa-me ver a tia Joana. - Já vi... Estão batendo.
JOANA - Vê quem é.
VICENTE - Pode entrar.
CENA II
Os mesmos e DR. LIMA
DR. LIMA - Ainda se lembram aqui do amigo velho?
JOANA - Ah! Meu senhor Dr. Lima. Há que anos!...
VICENTE - Sr. doutor!...
DR. LIMA - Esqueceste que parti para Europa.
JOANA - Não esqueci, não... meu senhor. Ainda há pouco estava falando nisso.
DR. LIMA - Cheguei hoje pelo paquete. Acabo de desembarcar. Que de Jorge?
JOANA - Saiu. Que alegria ele vai ter!... Mas como meu senhor acertou com a casa?
DR. LIMA - Custou-me!... Já andei por ai à matroca. Na Rua do Conde é que me ensinaram.
VICENTE - O vizinho de defronte?
DR. LIMA - Justamente! Mas eu estou reconhecendo esta figura...
JOANA - O ciganinho, pajem de meu senhor...
DR. LIMA - Ah! O grande Bilro!
VICENTE - Vicente Romão, Sr. doutor.
DR. LIMA - Como vais?... Que fazes?... Estás mais bem comportado?
JOANA - É oficial de justiça.
DR. LIMA - Escolheste um bom emprego, Bilro.
VICENTE - Vicente Romão, Sr. doutor. Mas então V. Sa. acha?
DR. LIMA - O que, homem?...
VICENTE - Bom o meu emprego?
DR. LIMA - Decerto! Precisavas viver bem com a justiça.
VICENTE - Peço vista para embargos, Sr. doutor; não tenho culpas no cartório.
DR. LIMA - Bem mostras que és do ofício!
VICENTE, (à Joana.) - É preciso perder esse mau costume de chamar a gente de ciganinho. Ouviu?!
JOANA - Ai!... Começas outra vez com as tuas empáfias.
VICENTE - Que embirrância!...
DR. LIMA - Que é isso lá? Assim é que festejam a minha chegada?
JOANA - É Bilro que...
VICENTE - Não é nada, Sr. doutor; V. Sa. me dê as suas ordens.
DR. LIMA - Vai me ver. Estou no Hotel da Europa.
VICENTE - Obrigado, Sr. doutor. Até mais ver, tia Joana.
CENA III
DR. LIMA e JOANA
JOANA - Meu senhor não quer descansar?...
DR. LIMA - Recosto-me aqui mesmo, neste sofá.
JOANA - Já almoçou, meu senhor? Aí tem café e leite.
DR. LIMA - Ainda conservo os meus antigos hábitos. Às oito horas já estava almoçado.
JOANA - Quem sabe se meu senhor não quer tomar o seu banho?
DR. LIMA - Não! Vem cá. Senta-te aí.
JOANA - Eu converso mesmo de pé com meu senhor.
DR. LIMA - Como vai teu filho?... Já está um homem?
JOANA - Meu senhor!... Eu lhe peço de joelhos... Não diga este nome!
DR. LIMA - Pelo que vejo o mistério dura ainda!
JOANA - E há de durar sempre! Meu senhor me prometeu.
DR. LIMA - Prometi.
JOANA - Meu senhor jurou!
DR. LIMA - É verdade! Mas julgava que na minha ausência tudo se havia de se revelar.
JOANA - Ele não sabe nada, e eu peço todos os dias a Deus que não lhe deixe nem suspeitar.
DR. LIMA - Assim tu ainda passas por sua escrava?
JOANA - Não passo, não! Sou escrava dele.
DR. LIMA - Mas Joana! Isto não é possível!
(continua...)
ALENCAR, José de. Mãe. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7546 . Acesso em: 21 jan. 2026.