Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Cinco Minutos

Por José de Alencar (1856)

— Escuta, meu amigo ; falemos seriamente. Tu dizes que me amas ; eu o creio, eu o sabia antes mesmo que me dissesses. As almas como as nossas quando se encontram, se reconhecem e se compreendem. Mas ainda é tempo; não julgas que mais vale conservar uma doce recordação do que entregar-se a um amor sem esperança e sem futuro?...

— Não, mil vezes não! Não entendo o que queres dizer; o meu amor, o meu, não precisa de futuro e de esperança, porque o tem em si, porque viverá sempre!... — Eis o que eu temia; e, entretanto, eu sabia que assim havia de acontecer ; quando se tem a tua alma, ama-se uma só vez.

— Então por que exiges de mim um sacrifício que sabes ser impossível?

— Porque, disse ela com exaltação, porque, se há uma felicidade indefinível em duas almas que ligam sua vida, que se confundem na mesma existência, que só têm um passado e um futuro para ambas, que desde a flor da idade até à velhice caminham juntas para o mesmo horizonte, partilhando os seus prazeres e as suas mágoas, revendo-se uma na outra até o momento em que batem as asas e vão abrigar-se no seio de Deus, deve ser cruel, bem cruel, meu amigo, quando, tendo-se apenas encontrado, uma dessas duas almas irmãs fugir deste mundo, e a outra, viúva e triste, for condenada a levar sempre no seu seio uma idéia de morte, a trazer essa recordação, que, como um crepe de luto, envolverá a sua bela mocidade, a fazer do seu coração, cheio de vida e de amor, um túmulo para guardar as cinzas do passado! Oh! deve ser horrível!...

A exaltação com que falava tinha-se tornado uma espécie de delírio; sua voz, sempre tão doce e aveludada, parecia alquebrada pelo cansaço da respiração.

Ela caiu sobre o meu seio, agitando-se convulsivamente em um acesso de tosse.

CAPÍTULO V

Assim ficamos muito tempo imóveis, ela, com a fronte apoiada sobre o meu peito, eu, sob a impressão triste de suas palavras.

Por fim ergueu a cabeça; e, recobrando a sua serenidade disse-me com um tom doce e melancólico:

— Não pensas que melhor é esquecer do que amar assim?

— Não! Amar, sentir-se amado, é sempre um gozo imenso e um grande consolo para a desgraça. O que é triste, o que é cruel, não é essa viuvez da alma separada de sua irmã, não; aí há um sentimento que vive, apesar da morte, apesar do tempo. É, sim, esse vácuo do coração que não tem uma afeição no mundo e que passa como um estranho por entre os prazeres que o cercam.

— Que santo amor, meu Deus! Era assim que eu sonhava ser amada! ...

— E me pedias que te esquecesse!...

— Não! não! Ama-me; quero que me ames ao menos...

— Não me fugirás mais?

— Não.

— E me deixarás ver aquela que eu amo e que não conheço? perguntei, sorrindo.

— Desejas?

—Suplico-te!

— Não sou eu tua?...

Lancei-me para a saleta onde havia luz e coloquei o lampião sobre a mesa do gabinete em que estávamos.

Para mim, minha prima, era um momento solene; toda essa paixão violenta, incompreensível, todo esse amor ardente por um vulto de mulher, ia depender talvez de um olhar.

E tinha medo de ver esvaecer-se, como um fantasma em face da realidade, essa visão poética de minha imaginação, essa criação que resumia todos os tipos. Foi, portanto, com uma emoção extraordinária que, depois de colocar a luz, voltei-me.

Ah!...

Eu sabia que era bela; mas a minha imaginação apenas tinha esboçado o que Deus criara.

Ela olhava-me e sorria.

Era um ligeiro sorriso, uma flor que se desfolhava nos seus lábios, um reflexo que iluminava o seu lindo rosto.

Seus grandes olhos negros fitavam em mim um desses olhares lânguidos e aveludados que afagam os seios d'alma.

Um anel de cabelos negros brincava-lhe sobre o ombro, fazendo sobressair a alvura diáfana de seu colo gracioso.

Tudo quanto a arte tem sonhado de belo e de voluptuoso desenhava-se naquelas formas soberbas, naqueles contornos harmoniosos que se destacavam entre as ondas de cambraia de seu roupão branco.

Vi tudo isto de um só olhar, rápido, ardente e fascinado! Depois fui ajoelhar-me diante dela e esqueci-me a contemplá-la.

Ela me sorria sempre e se deixava admirar.

Por fim tomou-me a cabeça entre as mãos e seus lábios fecharam-me os olhos com um beijo.

— Ama-me, disse.

O sonho esvaeceu-se.

A porta da sala fechou-se sobre ela, tinha-me fugido.

Voltei ao hotel.

Abri a minha janela e sentei-me ao relento.

A brisa da noite trazia-me de vez em quando um aroma de plantas agrestes que me causava íntimo prazer.

Fazia lembrar-me da vida campestre, dessa existência doce e tranqüila que se passa longe das cidades, quase no seio da natureza.

Pensava como seria feliz, vivendo com ela em algum canto isolado, onde pudéssemos abrigar o nosso amor em um leito de flores e de relva.

Fazia na imaginação um idílio encantador e sentia-me tão feliz que não trocaria a minha cabana pelo mais rico palácio da terra.

Ela me amava.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...56789...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →