Por José de Alencar (1860)
Ribeiro – Tu és bonita, e Deus criou as mulheres belas para brilharem como as estrelas. Terás tudo isso, diamantes, jóias, sedas, rendas, luxo e riqueza. Eu te prometo! Quando apareceres no teatro, deslumbrante e fascinadora, verás todos os homens se curvarem a teus pés; um murmúrio de admiração te acompanhará; e tu, altiva e orgulhosa, me dirás em um olhar: Sou tua.
Carolina – Tua noiva?
Ribeiro – Tudo, minha noiva, minha amante. Depois iremos esconder a nossa felicidade e o nosso amor num teatro delicioso. Oh! se soubesses como a vida é doce no meio do luxo, em companhia de alguns amigos, junto daqueles que se ama, e à roda de uma mesa carregada de luzes e de flores!... O vinho espuma nos copos e o sangue ferve nas veias; e os olhares queimam como fogo; os lábios que se tocam, esgotam ávidos o cálice de champanhe como se fossem beijos em gotas que caíssem de outros lábios... Tudo fascina; tudo embriaga; esquece-se o mundo e suas misérias. Por fim as luzes empalidecem, as cabeças se reclinam; e a alma, a vida, tudo se resume em um sonho.
Carolina – Mas o sonho passa.
Ribeiro – Para voltar no dia seguinte, no outro e sempre.
Carolina – Eu também tenho meus sonhos; mas não acredito neles.
Ribeiro – E que sonhas tu, minha Carolina?
Carolina – Vais zombar de mim!
Ribeiro – Não; conta-me.
Carolina – Sonho com o mundo que não conheço! Com esses prazeres que nunca senti. Como deve ser bonito um baile! Como há de ser feliz a mulher que todos olham, que todos admiram! Mas isto não é para mim.
Ribeiro – Tu verás!... Vem! A felicidade nos chama.
Carolina – Espera.
Ribeiro – Que queres fazer?
Carolina – Rezar! Pedir perdão a Deus.
Ribeiro – Pedir perdão de quê? O amor não é um crime.
Carolina – Meu Deus!... E minha mãe?
Ribeiro – Vem, Carolina.
CENA XIV (Os mesmos e Luís)
Carolina – Ah!
Ribeiro – Quem é este homem?
Carolina – Meu primo.
Luís – Não pense que é um rival que vem disputar-lhe sua amante. Não, senhor! Há pouco recusei a mão de minha prima que seu pai me oferecia; não a amo. Mas sou parente e devo ampará-la no momento em que vai perder-se para sempre.
Ribeiro – Não tenho medo de palavras; se quer um escândalo...
Luís – Está enganado! Se quisesse um escândalo e também uma vingança bastavame uma palavra; bastava chamar seu pai. Mas eu sei que não é a força que dobra o coração; eu temo que minha prima odeie algum dia em mim o homem que ela julgará autor de sua desgraça.
Ribeiro – O que deseja então?
Luís – Desejo tentar uma última prova. O senhor acaba de falar a esta menina a linguagem do amor e da sedução; eu vou falar-lhe a linguagem da amizade e da razão. Depois de ouvir-me, ela é livre; e eu juro que não me oporei à sua vontade.
Ribeiro – Ela ama-me! Era por sua vontade que me seguia.
Luís – Ela ama-o, sim; mas ignora que este amor é a perdição; que ela vai sacrificar a um prazer efêmero a inocência e a felicidade. Não sabe que um dia a sua própria consciência será a primeira a desprezá-la, e a envergonhar-se dela.
Carolina – Luís!
Ribeiro – Não acredites.
Luís – Acredite-me, Carolina. Falo-lhe como um irmão. Esses brilhantes, esse luxo, que há pouco o senhor lhe prometia, se agora brilham a seus olhos, mais tarde lhe queimarão o seio, quando conhecer que são o preço da honra vendida!
Carolina – Por piedade! Cale-se, meu primo!
Depois a beleza passará, porque a beleza passa depressa no meio das vigílias; então ficará só, sem amigos, sem amor, sem ilusões, sem esperanças: não terá para acompanhá-la senão o remorso do passado.
Ribeiro – Tu sabes que eu te amo, Carolina.
Luís – Eu também... a estimo, minha prima.
Ribeiro – Vem! Seremos felizes!
Carolina – Não!... Não posso!
Ribeiro – Por quê?... Há pouco não dizias que eras minha?
Carolina – Sim...
Ribeiro – A uma palavra deste homem, esqueces tudo?
Carolina – Não esqueço, mas...
Ribeiro – Sei a causa. Se ele não chegasse, eu era o preferido; mas entre os dois, escolhe aquele que talvez já tem direito sobre sua pessoa.
Carolina – Direitos sobre mim?
Luís – Já lhe disse que não amava essa moça.
Negar em tais casos é um dever. Adeus; seja feliz com ele.
Carolina – Com ele!... Mas eu não o amo!
Ribeiro – Já lhe pertence.
Carolina – Luís? Eu lhe suplico! Diga que é uma falsidade!
Luís – Eu juro!
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.