Por Mário de Andrade (1947)
Atchim! que ela explodiu, exagerando o grito de socorro com volúpia. “C’est pour les advertir que je suis enrhumée”, ela se pensa, heroicamente na presciência de que as “constipações” protegem contra os assaltos à virgindade. E atchim! ela repetiu mais uma vez, sem vontade nenhuma de espirrar, ameaçadora, se escutando vitoriosa no deserto da praça. Poum... poum... poum... Os dois perseguidores vinham apressados, passo igual. E o som dos sapatões possantes, eram possantes, devorava o atchim espavorido da pucela. E as passadas reboam mais vitoriosas ainda no silêncio infeliz do largo, ninguém para a salvar, só as árvores inúteis como “cochonneries”, enquanto os dois homens a vão alcançar. Não pode mais. Cairia nos braços deles, e eles a violariam sem piedade, exatamente como sucedera atrás da catedral de Ruão.
Mademoiselle apressa o passo ainda mais. Mas talvez o temor a imobilizasse como ao passarinho no olho da cobra: dá uns três passos corridinhos e logo quase pára de andar, esperançosa, sussurrando uns passos lerdos, curtos. Poum... poum... poum... Ela avistava, era um fragor de catedrais desmoronando, ela enxergava muito bem os coruchéus despencando em linha reta sobre ela, arcobotantes agitados se enrijando, a flecha zuninte da abside, crime seria hediondo porque ela havia de se debater com quanta força tinha, só a encontravam no dia seguinte desmaiada, as vestes rotas, sangrentas, o que diriam as meninas! muito sangue, poum... poum...já lhe punham, se lhe pusessem as mãos gluantes nos ombros, ela havia de berrar.
Afinal um dos homens agarra-a pelo pescoço. Mas segurara mal. Mademoiselle deu um galeio pra frente com o pescocinho, mais uma corridinha e conseguiu se distanciar do monstro. Mas o outro monstro agora alargava muito o passo e ela percebeu, a intenção dele era estirar a perna de repente, trançar na dela bem trançado e com a rasteira ela caía de costas pronta e ele tombava sobre ela na ação imensa. Porém ela fez um esforço ainda, um derradeiro esforço, deu um pulinho, passou por cima da perna e aqui ela chorava. Quis correr, não podia, porque o outro monstro veio feito uma fúria, ergueu os braços políticos e espedaçou-lhe os seios que sangravam. Mademoiselle deu um último gritinho e virou a esquina.
Mademoiselle virou a esquina da sua rua. Mademoiselle virou a esquina. Sua rua. Enxergou, era tão oferecidamente próxima a porta da pensão, e ela não teve mais esperança nenhuma. Nunca mais que havia de passar por trás das igrejas, e no dia seguinte as meninas desnorteadas topavam com aquela professorinha de dantes, longínqua, pura, branda. Mademoiselle estava salva, salva! E por sinal que a porta da pensão também estava alvissareiramente iluminada ainda, pois eram apenas vinte e uma horas. O copeiro na porta, homem de seu dever que a defendia se preciso, conversava com as criadas do portão vizinho. Um cheiro leve de acácias.
Mas isto Mademoiselle não podia sentir, nariz que era um tomate raçado de cooperativa. Sentiu mas foi que estava irremediavelmente salva pra toda a vida e então pôde correr. Correu, já num passinho lúcido, sem sofismas, e o pêlo do renard falso lhe fez uma brisa tão irônica no nariz que, quando parada na porta, primeiro ela teve que atender ao tiroteio dos espirros. E foram atchim, atchim, atchim, e atchim. “J’ai manqué un atchim, n’est-ce pas?”
Foram cinco. Pois assim mesmo os perseguidores lá vinham chegando atrás dela. Só que agora Mademoiselle estava mesmo salva pra todo o sempre e pôde reagir. Os homens vinham chegando em suas conversas distraídas. Se plantou no meio da calçada, fungou um sexto espirro inteiramente fora de propósito, tirou mais que depressa dois níqueis da bolsa. Os homens tiveram que parar, espantados, ante aquela velhota luzente de espirro e lágrima, que lhes impedia a passagem, ar de desafio. E Mademoiselle soluçava as sílabas, na coragem raivosa de todas as ilusões ecruladas:
— Mer-ci pour votre bo-nne com-pa-gnie!
E lhes enfiou na mão um níquel pra cada um, pagou! Pagou a “bonne compagnie”. Subiu as escadas correndo, foi chorar.
(Primeiros esboços, Amazonas, julho e agosto de 1927; primeira versão escrita, 9-I-43 a 17-I-43; segunda versão completa, 3-III-44 e 4-III-44; versão definitiva, junho de 15 de julho de 1944.)
Baixar texto completo (.txt)ANDRADE, Mário de. Atrás da catedral de Ruão. In: ANDRADE, Mário de. Contos novos. São Paulo: Martins, 1947.