Por Euclides da Cunha (1909)
Recua-se, porém, exatamente um século, a buscar o período decantado - e num grande desapontamento observa-se, à luz do relatório feito em 1752 por outro insigne governador, o Capitão-General Furtado de Mendonça, que a "capitania estava reduzida à última ruína..." Assim se desconchavam os pareceres, agitando idênticos desânimos. Ou então se harmonizavam de modo impressionador no firmarem a mesma decadência das gentes singulares. Em 1762 o Bispo do GrãoPará, aquele extraordinário Fr. João de S. José — seráfico voltaireano que tinha no estilo os lampejos da pena de Antônio Vieira — depois de resenhar os homens e as coisas, "assentando que a raiz dos vícios da terra é a preguiça", resumiu os traços característicos dos habitantes, deste modo desalentador: — "lascívia, bebedice e furto." Passam-se cem anos justos. Procura-se saber se tudo aquilo melhorou; abrem-se as páginas austeras de Russel Wallace, e vê-se que alguma vez elas parecem traduzir, ao pé da letra, os dizeres do arguto beneditino, porque a sociedade indisciplinada passa diante das vistas surpreendidas do sábio — drinking, gambling and lying — bebendo, dançando, zombando - na mesma dolorosíssima inconsciência da vida...
Assim, essa indiferença pecaminosa dos atributos superiores, esse sistemático renunciar de escrúpulos e esse coração leve para o erro, são seculares; e surgem de um doloroso tirocínio histórico, que vem da "Casa do Paricá" à "barraca" dos seringueiros. Compulsai os nossos velhos cronistas, com especialidade o imaginoso Padre João Daniel, e avaliareis o travamento de motivos físicos e morais que há muito, ali, entibiam os caracteres. E lede Tenreiro Aranha, José Veríssimo, dezenas de outros. Nestes livros se espalham, fracionadas, todas as cenas de um dos maiores dramas da impiedade na História.
Depois há o incoercível da fatalidade física. Aquela natureza soberana e brutal, em pleno expandir das suas energias, é uma adversária do homem. No perpétuo banho de vapor, de que nos fala Bates, compreende-se sem dúvida a vida vegetativa sem riscos e folgada, mas não a delicada vibração do espírito na dinâmica das idéias, nem a tensão superior da vontade nos atos que se alheiem dos impulsos meramente egoísticos. Não exagero. Um médico italiano — belíssimo talento — o Dr. Luigi Buscalione, que por ali andou há pouco tempo, caracterizou as duas primeiras fases da influência climatérica - sobre o forasteiro — a princípio sob a forma de uma superexcitação das funções psíquicas e sensuais, acompanhada, depois, de um lento enfraquecer-se de todas as faculdades, a começar pelas mais nobres...
Mas neste apelar para o clássico conceito da influência climática esqueceulhe, como a tantos outros, influxo porventura secundário, mas apreciável, da própria inconstância da base física onde se agita a sociedade.
A volubilidade do rio contagia o homem. No Amazonas, em geral, sucede isto: o observador errante que lhe percorre a bacia em busca de variados aspectos, sente, ao cabo de centenares de milhas, a impressão de circular num itinerário fechado, onde se lhe deparam as mesmas praias ou barreiras ou ilhas, e as mesmas florestas e igapós estirando-se a perder de vista pelos horizontes vazios; — o observador imóvel que lhe estacione às margens, sobressalteia-se,
intermitentemente, diante de transfigurações inopinadas. Os cenários, invariáveis no espaço, transmudam-se no tempo. Diante do homem errante, a natureza é estável; e aos olhos do homem sedentário que planeie submetê-la à estabilidade das culturas, aparece espantosamente revolta e volúvel, surpreendendo-o, assaltando-o por vezes, quase sempre afugentando-o e espavorindo-o.
A adaptação exercita-se pelo nomadismo.
Daí, em grande parte, a paralisia completa das gentes que ali vagam, há três séculos, numa agitação tumultuária e estéril.
Como quer que seja, para a Amazônia de agora devera restaurar-se integralmente, na definição da sua psicologia coletiva, o mesmo doloroso apotegma — ultra equinotialem non peccavi — que Barlaeus engenhou para os desmandos da época colonial.
Os mesmos amazonenses, espirituosamente, o perceberam. À entrada de Manaus existe a belíssima Ilha de Marapatá — e essa ilha tem uma função alarmante. É o mais original dos lazaretos — um lazareto de almas! Ali, dizem, o recém-vindo deixa a consciência... Meça-se o alcance deste prodígio da fantasia popular. A ilha que existe fronteira à boca do Purus, perdeu o antigo nome geográfico e chama-se "Ilha da Consciência"; e o mesmo acontece a uma outra, semelhante, na foz do Juruá. É uma preocupação: o homem, ao penetrar as duas portas que levam ao paraíso diabólico dos seringais, abdica às melhores qualidades nativas e fulmina-se a si próprio, a rir, com aquela ironia formidável.
É que, realmente, nas paragens exuberantes das heveas e castilloas, o aguarda a mais criminosa organização do trabalho que ainda engenhou o mais desaçamado egoísmo.
De feito, o seringueiro — e não designamos o patrão opulento, senão o freguês jungido à gleba das "estradas" —, o seringueiro realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se.
Demonstra-se esta enormidade précitando-a com alguns cifrões secamente positivos e seguros.
Vede esta conta de venda de um homem:
(continua...)
CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.