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#Contos#Literatura Brasileira

Ruty de Leão

Por Machado de Assis (1872)

O sujeito tinha a cara meia coberta com uma das abas do capote. Descobriu-se então e Ruy pedindo a lanterna ao criado que tinha com ele, pôde reconhecer a um parente de Madalena.

Passava-se esta cena nos Cajueiros e o nosso Ruy morava perto do Valongo: convidou o parente da moça para acompanhá-lo à casa.

Quando lá chegaram, tomou palavra o parente da moça, D. Martim, e disse:

— D. Madalena ama o licenciado Álvares e quer casar com ele; o pai opõe-se ao casamento e já a ameaçou com o convento. É essa a razão por que não aceita o seu amor.

— Mas, disse Ruy, eu não sei que diabo achou ela no licenciado...

— Nem eu, mas a verdade é esta.

Ruy refletiu na dificuldade de sua posição.

— Deste modo, disse ele, perco o meu tempo...

— Como eu perdi, replicou D. Martim: também eu a amei mas nada pude conseguir. O licenciado transtornou-lhe a cabeça. Que lhe havemos de fazer?

— Dar uma lição ao licenciado.

D. Martim piscou o olho, via-se-lhe no rosto que ele não vinha para outra coisa.

— Como lhe daremos a lição?

— Como?

— É verdade que ele costuma a falar com a prima às escondidas...

— A horas mortas?

— Sim. Chega ao portão e ela fala de cima da janela que dá para o jardim.

— Basta.

— Qual é o seu plano? perguntou D. Martim arranjando o capote.

— Esganá-lo.

— Mas isso é perigoso; o intendente da polícia não é de graças.

— Qual intendente! exclamou Ruy; pois eu cá vou consultar intendente para esganar um patife?

Saiu D. Martim exultando de contente, e Ruy deitou-se meditando na vingança que devia tomar do rival.

Na subseqüente noite não apareceu Ruy de Leão em casa da família de D. Madalena, e foi esperar o licenciado no sítio indicado por D. Martim. A noite era escura: e ameaçava temporal. Ruy saíra de casa sem criado nem lampião. Armou-se com uma faca, encostou se à parede e esperou que batesse a hora da vingança.

Ao cabo de longo tempo, que é sempre longo para quem espera, Ruy de Leão ouviu passos ao longe na direção do ponto em que se achava. Ao mesmo tempo abriu-se a janela de Madalena e o vulto da moça apareceu como Julieta quando esperava Romeu e a escada.

Era a hora suprema.

Coseu-se o doutor dos doutores com a parede e esperou o feliz rival que se aproximava cautelosamente. Mal o pobre namorado soltava as primeiras palavras, saltou-lhe acima o fidalgo e enterrou-lhe no estômago uma comprida faca. O licenciado apenas deu um gemido e tentou murmurar o nome de Madalena. Caiu. Ruy afastou-se rapidamente do teatro do crime.

No dia seguinte de manhã apareceu a polícia, levantou o cadáver, fez-lhe os exames precisos, e começou as indagações para ver de onde partia o crime. A primeira suspeita recaiu sobre o pai de Madalena cuja oposição ao licenciado era conhecida; mas o pai, vendo contra si a espada da lei, declarou que talvez fosse antes o crime praticado por um indivíduo que igualmente pretendia Madalena, homem de boa presença, formado em várias matérias e conhecido em toda a cidade. Houve da parte do intendente tão virtuosa repulsa ao ouvir tão negra suspeita, que o nosso Ruy se lha visse, devia votar-lhe eterna gratidão.

Todavia, como a justiça não podia deixar de averiguar tudo, mandou-se chamar Ruy de Leão, que apenas chegou negou o crime. Entretanto deu-se-lhe busca em casa, e achou- se-lhe a faca ensangüentada, que por um incrível descuido Ruy esquecera de lavar ou deitar fora. Interrogada a criadagem, confessou que o amo saíra de casa à noite, sem escudeiro, embuçado num capote e escondendo alguma coisa.

Todos os indícios eram contra o assassino.

A justiça d’Similia similibus curantur') Similia similibus curantur; estás vencido. Bebeu o resto do elixir do pajé. No dia seguinte morreu.

Assim acabou este grande homem, após quase três séculos de existência, tendo colhido louros na guerra, na ciência e no parlamento; feliz no jogo e nos amores; mimoso da fortuna; homem, enfim, que provou praticamente que a morte, longe de ser um mal, é um corretivo necessário aos aborrecimentos da vida.

Imitemo-lo nas façanhas e no amor ao estudo; não no desejo de ser imortal; e convencemo-nos de que o melhor elixir de imortalidade não vale os sete palmos de terra de Caju.

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