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#Romances#Literatura Brasileira

Ressurreição

Por Machado de Assis (1872)

Félix agradeceu-lhe o cumprimento. Ela estendeu-lhe a ponta dos dedos elegantemente apertados na pelica da luva. Trocaram algumas palavras mais. Daí a pouco, tendo-se ouvido o prelúdio de uma quadrilha, toda a gente se retirou. Ficaram na sala Félix e Moreirinha.

Moreirinha tinha cerca de trinta anos, um bigode espesso, uma aparência agradável e um espírito frívolo. Confessou que estava impressionado pela viúva, mas que eram muitos os seus rivais.

— Mas não são temíveis esses rivais? perguntou Félix.

— Não; um apenas.

— Qual?

— O Batista.

— É o que está nas graças?

— Não sei; mas é o mais valente de todos, e o que dispõe de mais tempo, posto seja casado.

— Casado?

— Com um anjo.

Félix procurou reanimar o pretendente, pondo em relevo todas as suas qualidades merecedoras de admiração. Inventou-lhe algumas que não tinha, reconheceu-lhe outras que possuía realmente, inda que de um merecimento relativo ou duvidoso. Não se podia negar a influencia do Moreirinha entre senhoras. Era ele galanteador por índole e por sistema; tinha, além disso (cousa importante), a plena convicção de que a sua conversa era preferida pelas damas. Ninguém melhor do que ele sabia lisonjear o amor-próprio feminino; ninguém prestava com mais alma esses leves serviços de sociedade, que constituem muita vez toda a reputação de um homem. Dirigia os piqueniques, comprava o romance ou a música da moda, encomendava os camarotes para as representações de celebridades, levava os pianistas aos saraus, tudo isso com um modo tão serviçal que era de se ficar morrendo por ele.

Félix voltou à sala quando se dançavam os últimos passos da quadrilha. Lívia estava esplêndida de graça e elegância. Nenhuma afetação nem acanhamento; seus movimentos eram a um tempo desembaraçados e modestos. O médico procurou ver se o doutor pretendente estaria nas graças da moça, mas ele dançava do mesmo lado em que ela estava; os olhares não podiam encontrar-se. Um sobrinho do coronel indicou-lhe a mulher do Batista: era uma moça de vinte anos, loura, assaz bonita e digna de inspirar amores. Por que motivo, o marido, casado há pouco, queria ir queimar a um templo estranho os perfumes que a esposa merecia?

Algum tempo depois de finda a quadrilha, dispôs-se Félix a deixar a casa do coronel, que lhe interceptou a passagem em nome, disse ele, da mulher e das moças. Félix respondeu-lhe que estava incomodado.

— Pretextos de peraltice, disse o velho, rindo alegremente; não o deixo sair nem que me caia morto na sala. Faz favor, minha senhora?

Estas últimas palavras eram dirigidas à irmã de Viana, que ia atravessando a saleta onde se achavam os dous.

— Que me quer, coronel? disse ela parando.

— Um favor apenas. Retenha-me este senhor, que se quer ir embora. Não tenho forças para tanto. Veja se mo consegue. Comece dando-lhe uma quadrilha.

— Dou-lhe a próxima, que é a minha última.

— Também se vai embora?

— Também.

— E uma debandada geral. Vou mandar trancar as portas.

O coronel afastou-se depois desta ameaça. Félix deu o braço a Lívia e foram sentar-se num sofá que ficava próximo.

— Meu irmão é muito seu amigo, disse Lívia acomodando as ondas de seda do vestido. Fala-me muito no senhor.

— É muito meu amigo, repetiu Félix, fazendo interiormente uma careta.

— Não admira, observou ela; o senhor merece ser estimado.

— Como sabe disso?

— Todos o afirmam.

— Nem todos serão sinceros, observou Félix.

Félix não se iludia a respeito da estima de Viana. Sem negar que o irmão da viúva lhe tivesse alguma amizade, dava-lhe todavia limitado valor Lívia asseverava, entretanto, que o irmão falava dele com grande entusiasmo, e até certo ponto o entusiasmo era sincero. Félix tinha sobre Viana certa ascendência moral; além disso, era um homem franco e hospedeiro, rude mas serviçal.

Dentro de pouco tempo a conversa entre o médico e a viúva foi perdendo a frieza cerimoniosa do começo. Passaram a falar do baile, e Lívia manifestou com expansiva alegria as suas excelentes impressões, sobretudo porque, dizia ela, vinha da roça, onde tivera uma vida reclusa e monástica. Falaram naturalmente da viagem que ela pretendia fazer. Confessou ela que era um desejo antigo e várias vezes diferido.

— Não pense, acrescentou Lívia, que me seduzem unicamente os esplendores de Paris, ou a elegância da vida européia. Eu tenho outros desejos e ambições. Quero conhecer a Itália e a Alemanha, lembrar-me da nossa Guanabara junto às ribas do Ano ou do Reno. Nunca teve iguais desejos?

— Estimaria poder fazê-lo, se me suprimissem os incômodos da viagem, mas com os meus hábitos sedentários dificilmente me resolveria a isso. Eu participo da natureza da planta; fico onde nasci. V. Ex.a será como as andorinhas...

(continua...)

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