Por Machado de Assis (1872)
— Minha senhora; é-me impossível, disse Coelho com os olhos pregados em Lúcia; tenho um objeto imperioso que me impede de aceitar este gracioso convite. Coelho disse estas palavras com voz clara e firme. Lúcia moveu a cabeça para ele. Coelho nem teve tempo de respirar; fez um gesto com os olhos, enquanto a moça, parecendo não reparar no gesto, volvia a cabeça para o tio e tia, e mostrava-se completamente senhora de si.
— Não entendo, concluiu entre si o rapaz.
Conversaram ainda algum tempo, até que o pretendente se despediu sem que a noiva lhe desse o menor sinal de surpresa. Parecia que o amava há muito tempo.
— Que mistério será este? dizia ele no carro; seja o que for, a moça está caída; vou enfim ser rico.
VII
A SOMBRA DE BANQUO
Coelho abençoou o acaso e o carnaval, autores do achado da carteira anônima e da misteriosa carta que o levou à fortuna.
Começou a freqüentar a casa de Ypsilanti, logo no dia seguinte, à espera de uma ocasião em que pudesse esclarecer o mistério que parecia estar envolvido na indiferença com que Lúcia o ouviu e aceitou.
Durante oito dias, não pôde ter a ocasião desejada.
No nono dia, porém, alcançou ensejo de falar a sós com a noiva, e desde as primeiras palavras notou que ela, em vez de lhe dizer alguma coisa a respeito da situação em que se achava, conversou placidamente dos seus planos futuros.
— Lúcia, disse ele, aproveito esta ocasião para explicar-te a nossa situação.
— Que situação?
— A situação em que me coloquei para contigo. Naquela noite em que fui ao jardim conversar...
— Ah! eras tu? perguntou ela admirada.
Mais admirado, porém, ficou o nosso Coelho. Eras tu! Então ela confessa que dez dias antes, supunha ter falado ao outro namorado, e apesar disso ia casar com ele, sem nenhum escrúpulo nem resistência?
Havia aí um mistério. Como descobri-lo?
— De um modo simples, disse Coelho consigo mesmo; pergunto-lho. E depois de um silêncio:
— Lúcia, pergunto-lhe; admiras-te de que fosse eu quem naquela noite estava no jardim; supunhas então que era o outro... Quem?
Lúcia franziu a testa, levantou a cabeça, mediu e rapaz de alto a baixo e saiu da janela.
— Está tudo perdido, pensou Coelho; lá se me vai a pequena, e com ela... Reparemos o erro.
O erro não era difícil reparar. Lúcia parece que esperava por isso mesmo.
— Olhe, disse ela, há um mistério aparente, mas uma coisa muito natural, que eu só lhe explicarei depois de casada.
E disse isto com um ar tão mimoso, que por um triz não endireita a boca. Coelho deu-se por satisfeito.
Foi marcado o dia do casamento e começaram a correr os banhos. Lúcia estava mais alegre que a mais alegre moça deste mundo; Ypsilanti dignou-se abrir um riso prazenteiro; e Coelho fez grandes promessas aos seus credores.
Dez dias antes do casamento, estava Coelho em casa devaneando e construindo os mais soberbos castelos, quando o moleque veio dizer-lhe que um sujeito mal-encarado o procurava.
— Conheces quem seja?
— Nunca o vi, não, senhor.
— Manda-o entrar.
Daí a pouco chegava Coelho à sala e dava com um homem alto, vestido de preto, sobrecasaca abotoada, cabelos em desordem e olhar ameaçador.
Coelho pôs-se em guarda.
— Que me quer?
Sllêncio.
— Que me quer? repetiu ele.
— Tenho a honra de falar ao sr. Coelho?
— Sim, senhor.
— Queria dar-lhe duas palavras.
— Pode falar.
Sentaram-se.
— Chamo-me Carlos...
— Ah!
— Ah?
Coelho estremeceu.
O homem continuou:
— Carlos Alves da Anunciação. Já ouviu alguma vez pronunciar o meu nome?
— Não me lembra...
— Lúcia devia casar comigo.
— Ah!
— Ah?
Coelho tornou a estremecer.
— E foi o senhor que me arrancou a felicidade das mãos, quem me lançou no abismo de todas as misérias, porque eu...
Não pôde continuar; tapou a cara com as mãos, e pareceu — pareceu ao menos — chorar à larga.
Coelho ficou comovido.
— Peço-lhe, disse este, que não me acuse...
— Não o acuso de nada, respondeu Alves, eu apenas digo que foi o senhor quem me fez desgraçado, não por vontade própria, mas por irrisão da minha sorte. Seja o que Deus quiser...
Alves parecia mais calmo.
— Falei-lhe um pouco exaltadamente, mas é a dor que me obriga a estes arrebatamentos. Se soubesse como eu sofro!
— Mas que lhe poderei eu fazer agora? disse Coelho.
O homem pareceu não ouvir essas palavras.
— Às vezes, cuido que estou doido. Sinto um fogo em mim; uma ardência... Ah! .. E, dizendo isto, começou a passear pela sala com grandes passos e sacudimentos de cabeça.
De repente, parou o homem.
— Sr. Coelho, disse ele, eu quero perdoar-lhe e não posso.
— Perdoar-me? Mas que culpa...
Coelho estacou.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quem não quer ser lobo.... 1872. Publicado originalmente em periódico.