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#Comédias#Literatura Brasileira

Quase ministro

Por Machado de Assis (1862)

Tenho uma que me mandaram de presente.

MÜLLER

Pois, senhor, eu acho que o governo deve aceitar com ambas as mãos a minha proposta.

AGAPITO

(baixo a Silveira)

E depois, eu acho que tenho direito a este obséquio; votei com vocês nas eleições.

SILVEIRA

Mas...

AGAPITO

Não mates o meu amor ainda nascente.

SILVEIRA

Enfim, o primo resolverá.

Cena XII

Os mesmos, PACHECO, BASTOS

PACHECO

Dá licença?

SILVEIRA

(à parte)

Oh! aí está toda a procissão!

BASTOS

S. Exa.?

SILVEIRA

Saiu. Queiram sentar-se.

PACHECO

Foi naturalmente ter com os companheiros para assentar na política do gabinete. Eu acho que deve ser a política moderada. É a mais segura.

SILVEIRA

É a opinião de nós todos.

PACHECO

É a verdadeira opinião. Tudo o que não for isto é sofismar a situação.

BASTOS

Eu não sei se isso é o que a situação pede; o que sei é que S. Exa. deve colocar-se na altura que lhe compete, a altura de um Hércules. O déficit é o leão de Neméia; é preciso matá-lo. Agora se para aniquilar esse monstro, é preciso energia ou moderação, isso não sei; o que sei é que é preciso talento e muito talento, e nesse ponto ninguém pode ombrear com S. Exa.

PACHECO

Nesta última parte concordamos todos.

BASTOS

Mas que moderação é essa? Pois faz-se jus aos cantos do poeta e ao cinzel do estatuário com um sistema de moderação? Recorramos aos heróis... Aquiles foi moderado? Heitor foi moderado? Eu falo pela poesia, irmã carnal da política, porque ambas são filhas de Júpiter.

PACHECO

Sinto não ter agora os meus artigos. Não posso ser mais claro do que fui naquelas páginas, realmente as melhores que tenho escrito.

BASTOS

Ah! V. S. também escreve?

PACHECO

Tenho escrito vários artigos de apreciação política.

BASTOS

Eu escrevo em verso; mas nem por isso deixo de sentir prazer, travando conhecimento com V. S.

PACHECO

Oh! Senhor.

BASTOS

Mas pense, e há de concordar comigo.

PACHECO

Talvez... Eu já disse que sou da política de S. Exa.; e contudo ainda não sei (para falar sempre em Júpiter...) ainda não sei se ele é filho de Júpiter Libertador ou Júpiter Stator; mas já sou da política de S. Exa.; e isto porque sei que, filho de um ou de outro, há de sempre governar na forma indicada pela situação, que é a mesma já prevista nos meus artigos, principalmente o V…

Cena XIII

Os mesmos, MARTINS

BASTOS

Aí chega S. Exa.

MARTINS

Meus senhores...

SILVEIRA

(apresentando Pereira)

Aqui o senhor vem convidar-te para jantar com ele.

MARTINS

Ah!

PEREIRA

É verdade; soube da sua nomeação e vim, conforme o coração me pediu, oferecer-lhe uma prova pequena da minha simpatia.

MARTINS

Agradeço a simpatia; mas o boato que correu hoje, desde manhã, é falso... O ministério está completo, sem mim.

TODOS

Ah!

MATEUS

Mas quem são os novos?

MARTINS

Não sei.

PEREIRA

(à parte)

Nada, eu não posso perder um jantar e um compadre.

BASTOS

(à parte)

E a minha ode? (a Mateus) Fica?

MATEUS

Nada, eu vou. (aos outros) Vou saber quem é o novo ministro para oferecer-lhe o meu invento...

BASTOS

Sem incômodo, sem incômodo.

SILVEIRA

(a Bastos e Mateus)

Esperem um pouco.

PACHECO

E não sabe qual será a política do novo ministério? É preciso saber. Se não for a moderação, está perdido. Vou averiguar isso.

MARTINS

Não janta conosco?

PACHECO

Um destes dias... obrigado... até depois...

SILVEIRA

Mas esperem: onde vão? Ouçam ao menos uma história. É pequena, mas conceituosa. Um dia anunciou-se um suplício. Toda gente correu a ver o espetáculo feroz. Ninguém ficou em casa: velhos, moços, homens, mulheres, crianças, tudo invadiu a praça destinada à execução. Mas, porque viesse o perdão à última hora, o espetáculo não se deu e a forca ficou vazia. Mais ainda: o enforcado, isto é, o condenado, foi em pessoa à praça pública dizer que estava salvo e confundir com o povo as lágrimas de satisfação. Houve um rumor geral, depois um grito, mais dez, mais cem, mais mil romperam de todos os ângulos da praça, e uma chuva de pedras deu ao condenado a morte de que o salvara a real clemência. - Por favor, misericórdia para este. (apontando para Martins) Não tem culpa nem da condenação, nem da absolvição.

PEREIRA

A que vem isto?

PACHECO

Eu não lhe acho graça alguma!

BASTOS

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