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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

E com um franzir de sobrolhos, deu-me a entender a origem semicriminosa dos charutos. Picou a ponta com os dentes, e não sem uma certa elegância, chegou o fósforo aceso ao seu e depois de esperar que eu também acendesse, falou-me:

— O doutor conhece o Rio?

— Não, fiz eu prazenteiramente, pois que o tratamento me agradava. Era a primeira vez que o recebia; lisonjeava-me naturalmente.

— Venha então comigo. Não saio nunca, mas posso acompanhá-lo na primeira visita. Podemos ir ao teatro, são oito e meia. Em dois minutos chego ali à Confeitaria da Estrada, e antes das nove estamos no Recreio...

— Mas, meu caro senhor...

— Laje da Silva, um seu criado.

— Mas, meu caro Senhor Laje da Silva, continuei, estou cansado. Seria melhor...

— Oh! o senhor! Um menino! Deixe-se disso... Vamos, doutor.

O doutor era mágico. Acedi e o Senhor Laje da Silva, negociante com padaria em Itaporanga, muito orgulhosamente estendeu a perna esquerda, e dos profundos refolhos da algibeira da calça respectiva tirou um maço enorme de notas, escolheu uma e pagou os charutos que fumávamos.

III

“Os antigos bebiam pérolas dissolvidas em vinagre. Não eram lá de gosto muito fino e a extravagância nada significava. Eu bebo a verde esmeralda sadia, emblema da mater Natureza, num copo de Xerez. Em vez da pérola mórbida, doença de um marisco, no acre vinagre, bebo o verde dos prados, a magnífica coma das palmeiras, o perfume das flores, tudo que o verde lembra da grande mãe augusta!”

Lembrei-me no dia seguinte dessa frase que o Raul Gusmão, um jovem jornalista, da amizade do Laje da Silva, pronunciou solenemente devagar no botequim do teatro, enquanto nos servíamos de bebidas. Disse-a com a sua voz fanhosa, sem acento de sexo e emitida com grande esforço. Falar era para a sua natureza obra difícil. Toda a sua pessoa. se movia, se esforçava extraordinariamente; todos os seus músculos entravam em ação; toda a energia da sua vida se aplicava em articular os sons e sempre, quando falava, era como se falasse pela primeira vez, como indivíduo e como espécie. Essa sua voz de parto difícil, esse espumar de sons ou gritos de um antropóide que há pouco tivesse adquirido a palavra articulada, deu-me não sei que mal-estar, que não mais falei até à sua despedida. Tive medo de que me fosse preciso empregar o mesmo esforço, que a minha palavra custasse também aquela grande dor já olvidada e vencida pela nossa espécie; e fiquei a ouvi-lo respeitosamente, tanto mais que nos tratou, a mim e ao padeiro, com tal desdém, com tal superioridade que fiquei entibiado, esmagado, diante do retrato, que dele fiz intimamente, de um grande literato, universal e aclamado, espécie de Balzac ou Dickens, apesar dos seus guinchos de Pithecanthropus.

Falava e não nos olhava quase; errava os olhos—os olhos pequeninos dentro de umas órbitas quase circulares a lembrar vagamente uma raça qualquer de suíno—errava os olhos, dizia, pelo pátio do teatro, e quando nos fixava trazia uma expressão de escárnio que ele mantinha com um razoável dispêndio de energia muscular. Veio ter a nossa mesa por instâncias do Laje da Silva. Ia passando um pouco afastado, quando o meu companheiro lhe correu ao encontro e com os maiores rogos, o trouxe para a mesa. Apresentou-nos e perguntou depois:

—Que toma, doutor?

—Nada.

—Oh! Alguma coisa... Um licor... Um conhaque?

—Vinho. Venha lá um vinho! Hoje não há mais vinhos... O senhor, acrescentou, voltando-se para mim com o seu ar fingidamente insolente; o senhor porventura dá-me noticias dos vinhos de Esmirna e de Quios?

Desviou o rosto sem esperar a resposta, tirou uma preguiçosa fumaça do charuto e pôs-se a olhar pausadamente o teatro, alçando a vista às vezes até à varanda; e, por fim, cheio de insolência e com aquela voz de parto difícil, chamou o caixeiro e encomendou meio cálice de peppermint e uma dose de Xerez. Simulando não perceber o nosso espanto, fez algumas considerações sobre os vinhos antigos, confrontando-os com os modernos, no sabor, na cor e no preparo, com um exato conhecimento de ambos. Vieram-lhe as garrafas e o jornalista, pegando na colherzinha com dois dedos e estendendo os outros de sua mão polpuda, abacial, como ma qualificou mais tarde, misturou ritualmente o verde peppermint no Xerez e foi por ai que disse: “Os antigos”...

Diante dele, dos seus gestos, das suas palavras, a impressão das mulheres, da agitação do teatro, apagou-se-me completamente. Ele resumiu-me o teatro, e fiquei com este encontro tão indelevelmente gravado que ainda agora, ao traçar estas linhas, estou a vê-lo erguer-se da cadeira com visível esforço, ficar um instante parado junto a nós, com o alentado corpanzil encostado à bengala vergada, dizer cheio de profundo aborrecimento — como isto é feio! — para então se afastar por fim, vagarosamente...

(continua...)

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