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#Contos#Literatura Brasileira

As Sete Dores de Nossa Senhora

Por Coelho Neto (1898)

Encontrariam ainda a sua casa? Assim pensavam quando, ás ultimas luzes da tarde dourada, viram-na de pé, entre as figueiras.

Em commovida alegria precipitaram os passos para a cabana, abriram-na, e, entrando, encontraram-na tal como a haviam deixado. Tudo em ordem : na horta os mesmos legumes, no eido as mesmas flores, as arcas cheias de trigo, as amphoras cheias de azeite, agua fresca na urna, frutos maduros nos gigos, o lume acceso e a lâmpada de barro alumiando o inteiror.

Ficaram maravilhados. Que bom visinho lhes teria, com tanto zelo, conservado o lar ?... E não viram um vulto branco, silencioso, alado, que lentamente sahia, diluindo-se como a nevoa ao sol.

—Louvado seja o Senhor! exclamou José ajoelhando-se no limiar da casa, d’olhos no céu que começava a estrellar-se.

Maria, risonha, ia e vinha revendo o seu canto doméstico e fora, isolado, o pequenino Jesus, de olhos baixos, escutava o coração piedoso que lhe repetia o canto dolente dos miseráveis de Matarieh.

E as lagrimas rolavam-lhe a quatro e quatro dos olhos misericordiosos.

III

Jesus no Templo

Aos doze annos era Jesus de tão doce bondade e tão simples, gracioso e natural de modos que os meninos suspendiam os brinquedos para ouvi-lo ; decoravam-lhe as palavras, repetiam-nas aos pais que as commentavam maravilhados.

O prazer maior do predestinado Infante era seguir as trilhas agrestes, buscar a companhia dos pastores pensativos, ficar com elles á mesma sombra, ouvindo as historias que contavam sobre as estrellas das noites calmas, emquanto as ovelhas soltas pastavam a herva tenra que alfombrava maciamente a encosta, dos outeiros.

José que, a principio, tentara ensinar-lhe o seu officio, não para aproveitar-lhe o trabalho, que a força ainda era pouca para carpintejar, mas com o fim de proprocionar-lhe distracção que o tirasse do sonho triste em que vivia, reconhecendo a inutilidade do seu desejo, porque o Menino ainda se entristecia mais na officina, deixou-o solto,

Como o sabia estimado de todos não se preoccupava com as suas ausências, certo de que o veria regressar á tarde lento, d'olhos extasiados no céu, com um lyrio ou com um ramo verde, que era quanto trazia dos seus passeios solitarios.

As interrogações da Mãi, que o afagava carinhosamente, respondia sempre com palavras mysteriosas ou dizendo :

-- Estive a pensar uma ovelha ferida, a ligar um ramo d'arvore, a juntar achegas para auxiliar um passaro que andava a tecer o ninho.

Ninguem, jamais, o surprendeu em exercicio que não fôsse de caridade meiga -— nem a correr pelas veredas, nem a trepar em troncos, nem a perseguir animaes; sempre o viam praticando acçoes piedosas, quando o não encontravam isolado em recantos desertos, a cabeça inclinada, pensando.

Na fonte, aonde costumava acompanhar Maria, á tarde, as moças, descançando as urnas, chamavam-no provocando-o a falar e elle, sisudo, respondia-lhes com tão seguro criterio que todas pasmavam e emmudeciam. A propria Virgem, com os olhos marejados de lagrimas, embevecida, não disfarçava o seu espanto ao ouvir as sentenças de tão profundo alcance que discorriam da linda boca do seu filho.

— É estranho, disse certa mulher, ouvindo-o. É estranho que de tão tenra criatura saiam conceitos taes. Nunca se viu rebento apenas abrolhado dar sombra a uma caravana e nos, em torno d'esta creança, attentas ás suas palavras, estamos como abrigadas por um renovo ainda, sem folha aberta.

— A caridade, disse Jesus, pode vir do mais humilde : não é preciso possuir minas na terra para matar a fome de um pobre : basta um pedaço de pão. A lan de uma ovelha combate o frio do mais rigoroso inverno; uma gotta de balsamo allivia a dôr mais forte. Parece-te muito que uma criança attraia adultos á sua paalavra : quando os corações são bem formados, para chama-los á pie-dade não é preciso mais que um ai!

Nada sei do que dizem os livros, mas muito tenho aprendido com o soffrimento dos homens. O que saborêa o vinho nem sempre conhece o gosto natural da uva. Uma coisa é comer o pão, outra é vê-lo fazer.

Eu sou como aquelle que apanha o fruto da vinha ou como o segador que faz o molho de trigo : sei como soffre a uva no lagar e quanto padece o grão no moinho : vejo correr o sangue da vida e ouço a trituração dolorosa da pedra que móe o grão.

Os livros são recadeiros indifferentes: contam, não fazem ver. Não é o mesmo saber da morte e vê-la. Quem lê presume, quem vê participa do bem ou do mal — goza ou padece. Eu vejo.

Não admiras as palavras pelo seu valor senão por virem de mim, que ainda hontem balbuciava, e parece-te estranho que ' tão grande mó de gente se reuna para ouvir-me e louve o que digo. É que todos que aqui se ajuntam trazem a alma preparada para a doutrina.

(continua...)

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