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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

De volta do enterro de uma parenta, a mulher de Numa vinha satisfeita. Nem sempre isso acontece, mas muitas vezes se dá, apesar de nós. Não se colhem bem os motivos, as razões profundas de se ter passado de uma emoção à contrária, o certo é que se tem como que um alívio n’alma, a impressão que se diminuíram os nossos pecados; ficamos melhor diante de nós mesmos, mais de acordo com Deus e com o Mistério.

Ficara Edgarda até o saimento, voltara e jantara muito contente com o marido e o primo Benevenuto, que raras vezes os visitava. A tarde passaram excepcionalmente comunicativos; e, muito ternos, marido e mulher, recolheram-se à hora do costume.

O dia amanheceu lindo, transparente, tranqüilo; e os galos se esqueceram das horas e foram cantando pela manhã em fora. As alturas destacavam-se na tela fina do azul infinito; o Corcovado curvava-se curioso sobre a casa em que habitavam e as janelas tiveram pressa em se abrir.

Num conservava os seus hábitos de estudante. Erguia-se da cama cedo, tomava banho e cedo procurava o café e os jornais. A mulher, que se demorava mais no leito, naquele dia acompanhara o marido. Ela ainda tomava o café, quando já o esposo lia os jornais.

O deputado buscava imediatamente o que, nas folhas, se dizia dos debates, os comentários, os artigos de fundo; e, ao ler um dos jornais, não pode deixar de dizer à mulher:

— Que elogio ao Caldas!

— Que Caldas? O Eduardo?

— Sim.

— E o que fez ele?

— Um discurso ontem.

A mulher serviu-se novamente de café, açucarou-o bem, arrepanhou o roupão que lhe ia deixando muito à mostra o peito rosado, e disse:

— Você por que não faz um, também?

Sem deixar o jornal, Numa atendeu, sacudindo os ombros:

— Ora!

Edgarda, depois de levar a xícara aos lábios, sorver um gole e descansá-la, observou:

— É preciso aparecer, Numa!

Com preguiça e mansidão, o marido objetou:

— Para que, Edgarda? Para quê? Há lá tanta gente inteligente que não preciso incomodar-me.

— Eu — fez ela — se estivesse no caso de você, por isso mesmo é que me incomodava. Você tem vergonha?

— Não, ao contrário; sou até desembaraçado, mas... mas... preciso estudar.

— Pois então estude! Que dificuldade há? Você por que não experimenta? Não se discute a tal questão do novo Estado?

— Discute-se.

— Por que você não fala?

— É... É... Mas...

— Precisa estudar, não é?

— É.

— Eu ajudo.

— Como? Você sabe?

— Não. Vejo os livros — pergunto a papai; você indica outros, tomo notas e depois você as redige. Lê alguns discursos e o resto se arranja.

— Não vai sair a coisa com algumas inconveniências!

— Qual! Passo a limpo e você leva a papai, para ver o que há.

A peça oratória foi assim composta; e, na redação final, Numa ficou muito contente com a habilidade da mulher. Encontrou muitas modificações felizes, muita frase bonita e cheio de uma intensa alegria, perguntou:

— Você já escreve há muito tempo, Edgarda?

— Não, nunca escrevi. Por quê? — respondeu a mulher com algum estremecimento na voz.

— Por quê?... Porque tem muita coisa que você escreveu melhor do que eu.

— Pois você pode ficar certo de uma coisa: escrevi o que está no teu rascunho, modificando uma ou outra coisa, naturalmente.

Obtida a aprovação do sogro, Numa estudou o discurso como se fosse um papel de teatro. Não era sem antecedentes o processo; e ele o soube empregar magnificamente, pois a Câmara admirou-o e o seu sucesso foi grande e notado em toda a cidade.

Quando terminou, recebendo abraços, ouvindo aqui e acolá comentários, a sua lembrança ia para a casa paterna, lá no seu Estado longínquo; e agora, passada a emoção da estréia, colecionando parabéns e olhares admirativos, naquela rua que sagra as celebridades nacionais, às recordações lhe voltavam mais vivas e mais cheias de ternura.

(continua...)

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