Por Machado de Assis (1870)
— Não; tenho algum amor à ciência, mas é um amor platônico. Trabalho para mostrar que sei e posso criar. Quanto aos outros homens, importa-me pouco que saibam ou não. Chamar-me-ão egoísta; eu digo que sou filósofo. Quer este diamante como prova da minha estima e amostra do meu saber?
— Aceito, respondi.
— Aqui o tem; mas lembre-se sempre que esta pedra rutilante, tão procurada no mundo, e de tanto valor, capaz de lançar a guerra entre os homens, esta pedra não é mais que um pedaço de carvão.
Guardei o brilhante, que era lindíssimo, e acompanhei o capitão e a filha que saíam do laboratório. O que naquele momento me impressionava mais que tudo era a moça. Eu não trocaria por ela todos os diamantes célebres do mundo. Cada hora que passava ao pé dela aumentava a minha fascinação. Sentia invadir-me o delírio do amor; mais um dia e eu estaria unido àquela mulher irresistivelmente; separar-nos seria a morte para mim. Quando chegamos à sala, o capitão Mendonça perguntou à filha, batendo uma pancada na testa:
— É verdade! Não me disseste que tinhas de pedir-me uma coisa?
— Sim; mas agora é tarde; amanhã. O doutor aparece, não?
— Sem dúvida.
— Afinal, disse Mendonça, o doutor há de acostumar-se aos meus trabalhos... e acreditará então...
— Já creio. Não posso negar a evidência; quem tem razão é o senhor; o resto do mundo não sabe nada.
Mendonça ouvia-me radiante de orgulho; o seu olhar, mais vago que nunca, parecia refletir a vertigem do espírito.
— Tem razão, disse ele, depois de alguns minutos; eu estou muito acima dos outros homens. A minha obra-prima...
— É esta, disse eu apontando para Augusta.
— Por ora, respondeu o capitão; mas eu medito coisas mais pasmosas; por exemplo, creio que descobri o meio de criar gênios.
— Como?
— Pego num homem de talento, notável ou medíocre, ou até num homem nulo, e faço dele um gênio.
— Isso é fácil...
— Fácil, não; é apenas possível. Aprendi isto... Aprendi? não, descobri isto, guiado por uma palavra que encontrei num livro árabe do século décimo-sexto. Quer vê-lo? Não tive tempo de responder; o capitão saiu e voltou daí a alguns segundos com um livro in-fólio na mão, grosseiramente impresso em caracteres árabes feitos com tinta vermelha. Explicou-me a sua idéia, mas por alto; eu não lhe prestei grande atenção; os meus olhos estavam embebidos nos de Augusta.
Quando sai era meia-noite. Augusta com voz suplicante e terna disse-me:
— Vem amanhã?
— Venho!
O velho estava de costas; eu levei a mão dela aos meus lábios e imprimi-lhe um longo e apaixonado beijo.
Depois saí correndo: tinha medo dela e de mim.
V
No dia seguinte recebi um bilhete do capitão Mendonça, logo de manhã. Grande notícia! Trata-se da nossa felicidade, da sua, da minha e da de Augusta. Venha à noite sem falta.
Não faltei.
Fui recebido por Augusta, que me apertou as mãos com fogo. Estávamos sós; ousei dar lhe um beijo na face. Ela corou muito, mas retribuiu-me imediatamente o beijo.
— Recebi hoje um bilhete misterioso de seu pai...
— Já sei, disse a moça; trata-se com efeito da nossa felicidade.
Passava-se isto no patamar da escada.
— Entre! entre! gritou o velho capitão.
Entramos.
O capitão estava na sala fumando um cigarro e passeando com as mãos nas costas, como na primeira noite em que o vira. Abraçou-me, e mandou que me sentasse.
— Meu caro doutor, disse-me ele depois que nos sentamos ambos, ficando Augusta de pé encostada à cadeira do pai; meu caro doutor, raras vezes a fortuna cai a ponto de fazer a completa felicidade de três pessoas. A felicidade é a mais rara coisa deste mundo.
— Mais rara que as pérolas, disse eu sentenciosamente.
— Muito mais, e de maior valia. Dizem que César comprou por seis milhões de sestércios uma pérola, para presentear Sevília. Quanto não daria ele por essa outra pérola, que recebeu de graça, e que lhe deu o poder do mundo?
— Qual?
— O gênio. A felicidade é o gênio.
Fiquei um pouco aborrecido com a conversa do capitão. Eu cuidava que a felicidade de que se tratava para mim e Augusta era o nosso casamento. Quando o homem me falou no gênio, olhei para a moça com olhos tão aflitos, que ela veio em meu auxilio dizendo ao pai:
— Mas, papai, comece pelo principio.
— Tens razão; desculpa se o sábio faz esquecer o pai. Trata-se, meu caro amigo — dou lhe este nome —, trata-se de um casamento.
— Ah!
— Minha filha confessou-me hoje de manhã que o ama loucamente e é igualmente amada. Daqui ao casamento é um passo.
— Tem razão; amo loucamente sua filha, e estou pronto a casar-me com ela, se o capitão consente.
— Consinto, aplaudo e agradeço.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O capitão Mendonça. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1870.