Por Machado de Assis (1871)
Silvestre Aguiar teve participação de que o casamento da sobrinha devia realizar-se dentro de um mês e meio. Pediu-se-lhe o consentimento apenas como uma formalidade, porque a decisão de D. Joaquina era bastante para o caso. Aguiar nada tinha que opor; aplaudiu, pelo contrário, a união.
— Eu sempre dizia, observou ele, que este doutor era um grande velhacão. Esta habilidade com que nos bifa a pequena é prova de que você nasceu com um sentido de mais.
Não ouviu tão alegremente o padre Barroso, que era considerado pessoa da família, esta notícia, que lhe foi dada com o pedido de aprovação.
— Eu não tenho nada que desaprovar, disse o padre, mas... a Clarinha gosta dele?
— Isso não se pergunta! exclamou D. Joaquina.
O padre olhou para a sobrinha do comendador; e no rosto dela leu uma satisfação tão pronunciada, que não fez mais do que encolher os ombros e dar os parabéns à noiva e aos tios.
Mas nessa mesma tarde, achando-se a sós com a moça, perguntou-lhe o padre:
— Que é isso, Clarinha? então aquele amor?...
— Aquele amor morreu, respondeu a moça tristemente; era um amor sem esperança, e amores destes, ou morrem ou matam. Era talvez melhor que me matasse; mas Deus quis que morresse. Não me queixo; obedeço ao meu destino.
O padre abanou a cabeça.
— Não, Clarinha, disse ele, esse amor não morreu: tu ainda o sentes e isso é mau, minha filha; é mau que cases com um homem, amando a outro...
— Oh! não! não! disse Clarinha. Afirmo-lhe que morreu; e se não morreu, juro-lhe que há de morrer.
— Juras! pobre criança! sabes o que estás jurando?
Duas lágrimas rebentaram dos olhos da moça. Viu-lhas o padre; e cingiu-a ao peito.
— Isso nunca! disse Clarinha. De que me serviria ser mulher de um homem que não me ama, nem pode amar?
— Sim, Jorge está perdido, murmurou o velho sacerdote com ar triste.
— Vou casar com um homem sério, continuou a moça; não lhe tenho amor, é verdade; mas tenho-lhe certo afeto e respeito; estou que seria feliz — tanto quanto o pode ser uma pessoa desgraçada. Peço-lhe que nada diga a este respeito; far-nos-ia mal a todos. Barroso abraçou a moça.
— Clarinha, tu és uma boa alma. Merecias ser feliz! A culpa disto é de teu pai. Se ele não te abandonasse, talvez não viesses a amar teu primo, porque esse amor nasceu da convivência. Teu pai...
— Perdoe-lhe, disse a moça; meu pai tem má cabeça, mas é bom coração. Vamos; promete que não tentará desfazer este casamento?
— Se o quer, prometo.
— Obrigada! disse a moça, beijando a mão ao padre.
Foi este quem celebrou o casamento. O bom velho tremia na ocasião de proferir as palavras sagradas. Depois, quando a cerimônia acabou, disse ao noivo em voz baixa e procurando reter uma lágrima que lhe tremia na pálpebra:
— Faça-a feliz, que ela o merece.
Jorge assistiu ao casamento, fez um cumprimento banal à noiva, disse quatro ou cinco graças chulas a alguns dos rapazes que assistiam à cerimônia, e foi acabar a noite no Alcazar.
Saltemos agora uns onze meses. Todos os personagens desta história estão ainda vivos. O comendador continua a jogar o gamão com o padre; a facúndia de D. Joaquina tem perdido com os anos; quanto a Jorge, desfruta a reputação de libertino criada à custa do pai. Silvestre procurou todos os meios de arrancar o filho à carreira funesta em que ele mesmo o lançara, mas era impossível; a obra estava feita.
Alguma coisa havia conseguido Aguiar; conseguira dar-lhe um emprego, a ver se ele contraía hábitos de trabalhar. O rapaz viu no emprego mais uma fonte de renda e apenas lhe concedia algumas horas vagas. Assinava o ponto às 9 horas (o que já era uma correção) e retirava-se da repartição às onze. Não faria isso sempre, para não acostumar mal o Estado; deixava de lá ir muitas vezes. Não constava, porém, que nessas folgas estivesse incluído o dia primeiro do mês.
Marques era feliz; encontrara na mulher o ideal que havia sonhado: uma boa caseira, afetuosa, cheia de desvelo e respeito. Clarinha não era feliz; mas também não era desgraçada. O marido era um homem honesto, que vivia por ela e para ela, e procurava todos os meios de lhe fazer uma vida de rosas. Doía-lhe, é verdade, uns longes de melancolia que a moça nunca pudera apagar da fronte; mas isso, dizia ele, era natureza. — Fui sempre assim; é meu modo. Nunca me conheceu outra, creio eu.
— É verdade que não, respondia o médico; mas se eu pudesse vencer esse modo...
— Eu sou feliz, dizia a moça com um sorriso triste.
Uma noite, o comendador Aguiar, que raríssimas vezes ia ao teatro, e tinha neste assunto as mesmas idéias de 1840, resolveu ir ver uma peça no Ginásio. A mulher não foi; detestava o teatro. Aguiar comprou o competente bilhete e entrou para a platéia. No fim do ato, saiu ao saguão e encontrou um amigo.
— Tu aqui? disse este. É coisa rara.
— É verdade, respondeu o velho. Também sou gente; quis ver estas coisas novas. E tu?
— Eu ainda me não aposentei. Onde estás?
— Nas cadeiras.
— Vem ao meu camarote.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caminho de Damasco. Jornal das Famílias, 1871.