Por Machado de Assis (1869)
Quando acabaram o jantar passaram à sala da sesta. Chamava-se assim uma espécie de galeria de onde se descortinavam os arredores da casa. Celestina deu o braço ao doutor sem que este lhe oferecesse e seguiram os dois adiante do major, que ia resmungando uns salmos de Davi.
Na sala da sesta sentaram-se os três; era a hora do crepúsculo; as montanhas e o céu começavam a despir os véus da tarde para vestir os da noite. A hora era propícia aos enlevos; o dr. Antero, posto que educado em outra ordem de sensações, sentia-se arrebatado nas asas da fantasia.
A conversa versou sobre mil coisas de nada; a moça disse ao doutor que tinha dezessete anos, e perguntou a idade dele. Depois, contou por menor todos os hábitos da sua vida, as suas prendas e seu gosto pelas flores, o seu amor às estrelas, tudo isso com uma graça que tirava um pouco da juventude e um pouco da infância.
Voltou-se ao assunto do casamento, e Celestina perguntou se o rapaz tinha dúvida em casar com ela.
— Nenhuma, disse ele; pelo contrário, tenho sumo prazer... é uma felicidade para mim.
— Que lhe disse eu? perguntou o pai de Celestina. Eu já sabia que bastava vê-la para
ficá-la amando.
— Então posso contar que seja meu marido, não?
— Sem dúvida, disse o doutor sorrindo.
— Mas o que é marido? perguntou Celestina, depois de alguns instantes. A esta pergunta inesperada, o rapaz não pôde reprimir um movimento de surpresa. Olhou para o velho major; mas este, encostado na larga poltrona em que se achava sentado, começava a adormecer.
A moça repetia com os olhos a pergunta feita com os lábios. O doutor envolveu-a com um olhar de amor, talvez o primeiro que teve em sua vida; depois pegou docemente na mão de Celestina e levou-a aos lábios.
Celestina estremeceu toda e soltou um pequeno grito, que fez acordar sobressaltado o major.
— Que é? disse este.
— Foi meu marido, respondeu a moça, que tocou com a boca dele na minha mão. O major levantou-se, olhou severamente para o rapaz, e disse à filha:
— Está bem, vai para o teu quarto.
A moça ficou um pouco surpreendida com a ordem do pai, mas obedeceu imediatamente, despedindo-se do rapaz com a mesma descuidosa simplicidade com que lhe falara pela primeira vez.
Quando os dois ficaram sós, o major pegou no braço do doutor, e disse-lhe:
— Meu caro senhor, respeite as pessoas do céu; quero um genro, não quero um tratante. Ora, cuidado!
E saiu.
O dr. Antero ficou atônito com as palavras do major; era a terceira vez que lhe falava em pessoas ou enviados do céu. Que queria dizer com aquilo?
Pouco depois veio o criado com ordem de acompanhá-lo até o quarto; o doutor obedeceu sem fazer objeção.
VI
A noite foi má para o dr. Antero; acabara de assistir a cenas tão estranhas, ouvira palavras tão misteriosas, que o pobre moço perguntou a si mesmo se não era vítima de um sonho.
Infelizmente não era.
Aonde iria dar aquilo tudo? Qual o resultado da cena da tarde? O rapaz temia, mas já não ousava pensar na fuga; a idéia da moça começava a ser um vínculo. Dormiu tarde e mal; foram-lhe agitados os sonhos.
No dia seguinte levantou-se cedo, e recebeu do criado as folhas do dia. Enquanto não vinha a hora do almoço, quis ler as notícias do mundo, do qual parecia estar separado por um abismo.
Ora, eis aqui o que encontrou no Jornal do Commercio:
Suicídio.
— Anteontem, à noite, o dr. Antero da Silva, depois de dizer ao seu criado que saísse e só voltasse de madrugada, encerrou-se no quarto da casa que ocupava à rua da Misericórdia, e escreveu a carta que os leitores encontrarão adiante. Como se vê dessa carta, o dr. Antero da Silva declarava a sua intenção de matar-se; mas a singularidade do caso é que, voltando o criado para casa de madrugada, encontrou a carta, mas não encontrou o amo.
O criado deu imediatamente parte à polícia, que empregou todas as diligências a ver se obtinha notícia do jovem doutor.
Com efeito, depois de bem combinadas providências, encontrou-se na praia de Santa Luzia um cadáver que se reconheceu ser o do infeliz moço. Parece que, apesar da declaração de que empregaria a pistola, o desgraçado procurou outro meio menos violento de morte.
Supõe-se que uma paixão amorosa o levou a cometer este ato; outros querem que fosse
por fugir aos credores. A carta entretanto reza de outros motivos. Ei-la. Aqui seguia a carta que vimos no primeiro capítulo.
A leitura da notícia produziu no dr. Antero uma impressão singular; estaria ele morto deveras? Teria já saído do mundo da realidade para o mundo dos eternos sonhos? Era tão extravagante tudo o que lhe acontecia desde a antevéspera, que o pobre rapaz sentiu por um instante vacilar-lhe a razão.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O anjo Rafael. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1869.