Por Machado de Assis (1862)
Não se zangue, minha senhora. Todos erramos; mas V. Exa. erra muito. Não me dirá de que serve, o que aproveita usar uma mulher bonita de seus encantos para espreitar um coração de vinte e cinco anos e atraí-lo com as suas cantilenas, sem outro fim mais do que contar adoradores e dar um público testemunho do que pode a sua beleza? Acha que é bonito? Isto não revolta? (movimento de Carlota)
CARLOTA
Por minha vez pergunto: donde lhe vem o direito de pregar-me sermões de moral?
DOUTOR
Não há direito escrito para isto, é verdade. Mas, eu que já tentei trincar o cacho de uvas pendente, não faço como a raposa da fábula, fico ao pé da parreira para dizer ao outro animal que vier: "Não sejas tolo! não as alcançarás com o seu focinho!" e à parreira impassível: "Seca as tuas uvas ou deixa-as cair; é melhor do que tê-las aí a fazer cobiça às raposas avulsas!" É o direito da desforra!
CARLOTA
Ia-me zangando. Fiz mal. Com o Sr. Doutor é inútil discutir: fala-se pela razão, responde pela parábola.
DOUTOR
A parábola é a razão do evangelho, e o evangelho é o livro que mais tem convencido.
CARLOTA
Por tais disposições vejo que não deixa o posto de sentinela dos corações alheios?
DOUTOR
Avisador de incautos; é verdade.
CARLOTA
Pois declaro que dou às suas palavras o valor que merecem.
DOUTOR
Nenhum?
CARLOTA
Absolutamente nenhum. Continuarei a receber com a mesma afabilidade o seu amigo Valentim.
DOUTOR
Sim, minha senhora!
CARLOTA
E ao Doutor também.
DOUTOR
É magnanimidade.
CARLOTA
E ouvirei com paciência evangélica as suas prédicas não encomendadas.
DOUTOR
E eu pronto a proferi-las. Ah! minha senhora, se as mulheres soubessem quanto ganhariam se não fossem vaidosas! É negócio de cinqüenta por cento.
CARLOTA
Estou resignada: crucifique-me!
DOUTOR
Em outra ocasião.
CARLOTA
Para ganhar forças quer almoçar segunda vez?
DOUTOR
Há de consentir que recuse.
CARLOTA
Por motivo de rancor?
DOUTOR
(pondo a mão no estômago)
Por motivo de incapacidade. (cumprimenta e dirige-se à porta. Carlota sai pelo fundo. Entra Valentim)
Cena VI
O DOUTOR, VALENTIM
DOUTOR
Oh! A que horas é o enterro?
VALENTIM
Que enterro? De que enterro me falas tu?
DOUTOR
Do teu. Não ias procurar o descanso, meu Werther?
VALENTIM
Ah! não me fales! Esta mulher... onde está ela?
DOUTOR
Almoça.
VALENTIM
Sabes que a amo. Ela é invencível. Às minhas palavras amorosas respondeu com a frieza do sarcasmo. Exaltei-me e cheguei a proferir algumas palavras que poderiam indicar, da minha parte, uma intenção trágica. O ar da rua fez-me bem; acalmei-me...
DOUTOR
Tanto melhor!...
VALENTIM
Mas eu sou teimoso.
DOUTOR
Pois ainda crês?...
VALENTIM
Ouve: sinceramente aflito e apaixonado, apresentei-me a D. Carlota como era. Não houve meio de torná-la compassiva. Sei que não me ama; mas creio que não está longe disso; acha-se em um estado que basta uma faísca para acender-se-lhe no coração a chama do amor. Se não se comoveu à franca manifestação do meu afeto, há de comover-se a outro modo de revelação. Talvez não se incline ao homem poético e apaixonado; há de inclinar se ao heróico ou até cético... ou a outra espécie. Vou tentar um por um.
DOUTOR
Muito bem. Vejo que raciocinas; é porque o amor e a razão dominam em ti com força igual. Graças a Deus, mais algum tempo e o predomínio da razão será certo.
VALENTIM
Achas que faço bem?
DOUTOR
Não acho, não, senhor!
VALENTIM
Por quê?
DOUTOR
Amas muito esta mulher? É próprio da tua idade e da força das coisas. Não há caso que desminta esta verdade reconhecida e provada: que a pólvora e o fogo, uma vez próximos fazem explosão.
VALENTIM
É uma doce fatalidade esta!
DOUTOR
Ouve-me calado. A que queres chegar com este amor? Ao casamento; é honesto e digno de ti. Basta que ela se inspire da mesma paixão, e a mão do himeneu virá converter em uma só as duas existências. Bem. Mas não te ocorre uma coisa: é que esta mulher, sendo uma namoradeira, não pode tornar-se vestal muito cuidadosa da ara matrimonial.
VALENTIM
Oh!
DOUTOR
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caminho da porta. Rio de Janeiro, 1862.