Por Aluísio Azevedo (1887)
— Creio que já disse bem claro qual é a minha resolução a respeito de casamento, e agora só me convém saber se meu pai está ou não disposto a tratar disso!
— Não digo que não, mas para que fazer as coisas tão precipitadamente?...
O velho sentia o suor gelar-lhe o corpo.
— Custe o que custar, eu me casarei antes da partida daquele miserável! Se meu pai não fizer o que eu disse, o escândalo será maior! Ao menos falo com esta franqueza — Não tenho
"mistérios"!
Ela havia-se desprendido das mãos do Conselheiro e passeava agora pelo quarto, muito agitada, com as faces em fogo, os lábios secos e os olhos ainda úmidos das últimas lágrimas. E em todos os seus movimentos nervosos, em todos os seus gestos, sentia-se uma resolução enérgica, altiva e orgulhosa.
— Não há outro remédio! Pensou o velho, limpando a fronte orvalhada e fria da neve, não há outro remédio!
E aproximou-se da filha, para lhe dizer quase em segredo, com a voz estrangulada pela vergonha:
— Fernando não se casa contigo, porque é teu irmão...
Magdá retraiu-se toda, como se lhe tivesse passado por diante dos olhos uma faísca elétrica, e fitou-os sobre o pai, que abaixou a cabeça num angustioso resfolegar de delinqüente.
— Ora aí tens... balbuciou ele, depois de uma pausa, durante a qual só se ouviam os soluços de Magdá que se lhe havia atirado nos braços. — Já vês que aqui o único culpado sou eu; nunca devia ter consentido que vocês se criassem juntos, sem lhes ter exposto a verdade. Tua mãe ignorou sempre que Fernando fosse meu filho...
— Vá ter com ele... pediu Magdá chorando. — Que me perdoe! Que me perdoe! Diga-lhe que eu não sabia de nada, e que sou muito desgraçada!
Quando o Conselheiro saiu do quarto, ela tornou à cama, e daí a pouco delirava com febre.
Transferiu-se a festa; mandou-se chamar logo o Dr. Lobão, que receitou; e, só à tarde do dia seguinte, a enferma deu acordo de si, depois de um sono profundo que durou muitas horas.
Despertou tranqüila, um pouco abstrata. — Tinha sonhado tanto!...
Levou um bom espaço a cismar, por fim soltou um profundo suspiro resignado e pediu que conduzissem o irmão à sua presença. Ele foi logo, acompanhado pelo Conselheiro, e assentouse, sem dizer palavra, numa cadeira ao lado da cabeceira da cama. Magdá tomou-lhe as mãos em silêncio, beijou-las repetidas vezes, e em seguida levou uma delas ao rosto e ficou assim por algum tempo, a descansar a cabeça contra a palma da mão de Fernando. Como por encanto, a sua meiguice havia se transformado da noite para o dia: já não eram de noiva os seus carinhos, mas perfeitamente de irmã. Não por isso menos expansivos, antes parecia agora muito mais em liberdade com ele; pelo menos nunca lhe havia tomado as mãos daquele modo. Ainda fez mais depois: pousou a face contra o seu colo e cingiu-lhe o braço em volta da cintura.
— E eu que cheguei a supor que eras um homem mau!... balbuciou, com uma voz tão arrependida, tão humilde e tão meiga, que o rapaz a apertou contra o seio e deu-lhe um beijo no alto da cabeça.
Magdá estremeceu todo, teve um novo suspiro, e deixou-se cair sobre os travesseiros, com os olhos fechados e a boca entreaberta. Chorava.
— Então, agora estão feitas as pazes?... perguntou o Conselheiro, alisando com os dedos o cabelo da filha.
Esta ergueu as pálpebras vagarosamente e deu em resposta um sorriso sofredor e triste.
E ainda pensas no Martinho de Azevedo?... interrogou o velho, afetando bom humor.
Ela voltou seu sorriso para Fernando, como lhe pedindo perdão daquela vingança tão tola e tão imerecida.
Todo o resto desse dia se passou assim, sem uma nuvem que o toldasse; a paz era completa, pelo menos na aparência. Magdá não se queixava de coisa alguma. O Dr. Lobão, quando foi à noite, encontrou-a de pé, muito esperta, conversando com a gente de Brito. O médico desta vez olhou para a rapariga com mais atenção e fez-lhe um cúmulo de perguntas à queima-roupa: — Se era muito impressionável; se era sujeita a enxaquecas e dores de cabeça; o que costumava comer ao almoço e ao jantar; se tinha bom apetite; se usava o espartilho muito apertado; desde que idade freqüentava os bailes; se as suas funções intestinais eram bem reguladas; e, como estas, outras e outras perguntas, a que Magdá respondia por comprazer, afinal já importunada.
Ela sempre embirrara com o Dr. Lobão; tinha-lhe velha antipatia; achava-o sistematicamente grosseiro, rude, abusando da sua grande nomeada de primeiro cirurgião do Brasil, maltratando os seus doentes, cobrando-lhes um despropósito pelas visitas, a ponto de fazer supor que metia na conta as descomposturas que lhes passava.
— A senhora tem tido muitos namorados? interrompeu ele, depois de estudar, medindo-a de alto a baixo, por cima dos óculos.
Magdá sentiu venetas de virar-lhe as costas e retirar-se.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.