Por Aluísio Azevedo (1890)
Fora ali que uma companhia de saltimbancos, recentemente chegada da Europa, erguera a sua tenda, uma grande barraca de lona sobre sarrafos de pinho. A companhia compunha-se do velho saltimbanco Vampa, que se apregoava muito entendido nessas cousas de teatro e chegava até a compor pantomimas lisonjeiras e bajuladoras, em homenagem a qualquer fidalgo endinheirado. Compunha-se mais de Zabanila, esposa de Vampa, cigana nostálgica das suas terras do Oriente, onde a brisa tinha o perfume do sândalo e o beijo dos homens tinha mais volúpia, mas em todo o caso sempre obediente ao marido e pronta a aceitar o rendoso amante que este lhe indicava. Compunha-se também de seis cavalos, um elefante e três comparsas.
O Vampa, empresário da companhia e autor dramático nas horas vagas, como Shakespeare, Moliêre e Gil Vicente, era um tipo bem falante, vocalizando as sílabas, arteiro e manhoso, cheio de invenções para atrair o público, e gostando de se acercar das rodas de fidalgos onde encontrava os amantes para a mulher e os parceiros para a jogatina.
Chegado aqui ao Rio de Janeiro, fez logo grande escândalo com uns anúncios nunca vistos, que só ele seria capaz de imaginar: sujeitos de zabumba com o letreiro do espetáculo a zabumbar por todas as ruas da cidade. O povo não entendia o letreiro, porque não sabia ler, mas isto não fazia mal porque adivinhava. E o circo do Valongo tornou-se logo o rendez-vous noturno da gente alegre que lá ia, principalmente para aplaudir a Zabanila. Ela resistia, porém, a todas as aclamações. Fazia-se muito séria. E os despeitados souberam em pouco que a requestava e possuía quem muito alta e poderosamente mandava naquele tempo.
Por isso o Satanás não se apressava muito em ir buscar o jovem discípulo governante. Por isso, e porque desprezava o Vampa que, ao em vez de procurá-lo para intermediário tivera o arrojo de meter o d. Bias no negócio.
Vagaroso de andar por aquela lama das ruas, ele chegou, entretanto, e bateu três pancadas maçônicas na porta traseira.
- Entre! gritaram-lhe.
Levantou a aldraba, empurrou a porta e achou-se num pequeno aposento com paredes de tábuas mal juntas, onde d. Pedro bebia com Zabanila e Vampa, e ria-se a bom rir de umas cousas que lhe dizia uma esquálida cigana feiticeira, com um corpo de pergaminho enrugado sobre os ossos.
- Vieste a propósito. A Mãe Velha estava aqui dizendo que eu havia de ser duas vezes rei e demorrer envenenado, sem cetro, nem coroa, como um qualquer pobre diabo!
E acrescentou:
- Pergunta-lhe pelo teu destino. Talvez ela nos diga o teu futuro e pelo menos metade dessemisterioso passado, que tu gostas de esconder. Eu gosto de rir.
- Pois fala, velha feiticeira! disse o Satanás, sentando-se e estendendo a mão esquerda à cigana.
Esta debruçou-se sobre a mesa, gastou uma longa pausa no exame, e depois, fitando alternativamente o príncipe e o escultor, sentenciou:
- Para quê? sabem melhor vocês dous, porque um, não sei qual, tem de morrer pelas mãos dooutro.
- Ora!
E d. Pedro levantou-se em toda a altura robusta do seu porte elegante, senhoril e belo.
- Tolices de velha! disse. E, voltando-se para o Satanás, acrescentou: - Vamos.
Partiram.
Pela noite escura e chuvarenta, seguiram os dous, um ao lado do outro, silenciosos, quase apreensivos com a lúgubre profecia da velha feiticeira, que o Vampa, entretanto, surrava lá no Valongo para que ela não fosse em outras vezes dizer cousas desagradáveis aos visitantes, que pagavam bem e não deviam gostar de semelhantes asneiras.
- Envenenado! Sem cetro e sem coroa! rosnou o príncipe como que a concluir uma meditação.E acrescentou: - Tu acreditas em feitiçaria, e pensas acaso que a previsão humana pode rasgar o tenebroso véu do futuro?
O escultor teve um gesto incerto de dúvidas, e murmurou um - talvez.
- Eu acredito, preciso acreditar, afirmou d. Pedro.
E, ali no campo de Santana onde estavam, parou em compostura elegante de homem que posa para estátua.
- Escuta! ordenou violentamente numa grande voz vibrante de comando. - Eu sou um infeliz.Não nasci para estes tempos sossegados de agora. Pela minha imaginação perpassam de constante os vultos desses heróis antigos que fizeram o mais nobre da minha ascendência. E eles fizeram tanto que nada mais tenho a fazer. Entretanto eu quisera ser o construtor de um grande povo...
E, depois de uma longa pausa, durante a qual, de braços cruzados, ele parecia a sombra de Napoleão, visitando a sepultura de Santa Helena, acrescentou:
- Vês, Satanás! Fervilha-me dentro das artérias o sangue dos heróis. É preciso acreditar no horóscopo das feiticeiras porque elas me predizem sempre um desses futuros tenebrosos, tão cheios de desgraças, que só podem pertencer aos valentes lidadores do progresso humano.
E disse mais, visionariamente:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O esqueleto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7409 . Acesso em: 18 mar. 2026.