Por Machado de Assis (1868)
Nada disto fazia supor da parte de Vasconcelos uma reforma de costumes. Preparava-se apenas para continuar a vida anterior.
Dous dias depois da conversa com o irmão, Vasconcelos procurou Augusta, para tratar francamente do casamento de Adelaide.
Já nesse intervalo o futuro noivo, obedecendo ao conselho de Vasconcelos, fazia corte prévia à filha. Era possível que, se o casamento não lhe fosse imposto, Adelaide acabasse por gostar do rapaz. Gomes era um homem belo e elegante; e, além disso, conhecia todos os recursos de que se deve usar para impressionar uma mulher.
Teria Augusta notado a presença assídua do moço? Vasconcelos fazia essa pergunta ao seu espírito no momento em que entrava na toilette da mulher.
- Vais sair? perguntou ele.
- Não; tenho visitas.
- Ah! quem?
- A mulher do Seabra, disse ela.
Vasconcelos sentou-se, e procurou um meio de encabeçar a conversa especial que ali o levava.
- Estás muito bonita hoje!
- Deveras? disse ela sorrindo. Pois estou hoje como sempre, e é singular que o digas hoje...
- Não; realmente hoje estás mais bonita do que costumas, a ponto que sou capaz de ter ciúmes...
- Qual! disse Augusta com um sorriso irônico.
Vasconcelos coçou a cabeça, tirou o relógio, deu-lhe corda; depois entrou a puxar as barbas, pegou uma folha, leu dous ou três anúncios, atirou a folha ao chão, e afinal, depois de um silêncio já prolongado, Vasconcelos achou melhor atacar a praça de frente.
- Tenho pensado ultimamente em Adelaide, disse ele.
- Ah! por quê?
- Está moça...
- Moça! exclamou Augusta, é uma criança...
- Está mais velha do que tu quando te casaste...
Augusta franziu ligeiramente a testa.
- Mas então... disse ela.
- Então é que desejo fazê-la feliz e feliz pelo casamento. Um rapaz, digno dela a todos os respeitos, pediu-ma há dias, e eu disse-lhe que sim. Em sabendo quem é, aprovarás a escolha; é o Gomes. Casamo-la, não?
- Não! respondeu Augusta.
- Como, não?
- Adelaide é uma criança; não tem juízo nem idade própria... Casar-se-á quando for tempo.
- Quando for tempo? Estás certa se o noivo esperará até que seja tempo?
- Paciência, disse Augusta.
- Tens alguma cousa que notar no Gomes?
- Nada. É um moço distinto; mas não convém a Adelaide.
Vasconcelos hesitava em continuar; parecia-lhe que nada se podia arranjar; mas a idéia da fortuna deu-lhe forças, e ele perguntou:
- Por quê?
- Estás certo de que ele convenha a Adelaide? perguntou Augusta, eludindo a pergunta do marido.
- Afirmo que convém.
- Convenha ou não, a pequena não deve casar já.
- E se ela amasse?...
- Que importa isso? esperaria!
- Entretanto, Augusta, não podemos prescindir deste casamento... É uma necessidade fatal.
- Fatal? não compreendo.
- Vou explicar-me. O Gomes tem uma boa fortuna.
- Também nós temos uma...
- É o teu engano, interrompeu Vasconcelos.
- Como assim?
Vasconcelos continuou:
- Mais tarde ou mais cedo havias de sabê-lo, e eu estimo ter esta ocasião de dizer-te toda a verdade. A verdade é que, se não estamos pobres, estamos arruinados.
Augusta ouviu estas palavras com os olhos espantados. Quando ele acabou, disse:
- Não é possível!
- Infelizmente é verdade!
Seguiu-se algum tempo de silêncio.
- Tudo está arranjado, pensou Vasconcelos.
Augusta rompeu o silêncio.
- Mas, disse ela, se a nossa fortuna está abalada, creio que o senhor tem cousa melhor para fazer do que estar conversando; é reconstruí-la.
Vasconcelos fez com a cabeça um movimento de espanto, e como se fosse aquilo uma pergunta, Augusta apressou-se a responder:
- Não se admire disto; creio que o seu dever é reconstruir a fortuna.
- Não me admira esse dever; admira-me que mo lembres por esse modo. Dir se-ia que a culpa é minha...
- Bom! disse Augusta, vais dizer que fui eu...
- A culpa, se culpa há, é de nós ambos.
- Por quê? é também minha?
- Também. As tuas despesas loucas contribuíram em grande parte para este resultado; eu nada te recusei nem recuso, e é nisso que sou culpado. Se é isso que me lanças em rosto, aceito.
Augusta levantou os ombros com um gesto de despeito; e deitou a Vasconcelos um olhar de tamanho desdém que bastaria para intentar uma ação de divórcio.
Vasconcelos viu o movimento e o olhar.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O segredo de Augusta. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.