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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Ia perfeitamente resolvido a morrer; mas, pelo caminho, à medida que se aproximava do seu triste destino, assistia­lhe um estranho interesse por tudo que o cercava. Ele, que naqueles últimos tempos não ligava importância a cousa alguma, sentia agora reviver no seu organismo, mais forte do que nunca, a sensação do mundo exterior. A gente que passava, homens, mulheres e crianças, todos lhe prendiam a atenção diretamente, como se de súbito em cada um deles descobrisse a seu respeito íntimas correlações na luta pela existência.

E quanto mais se avizinhava da morte, mais preso se sentia à vida, sem coragem todavia para arrostála de frente. E, cheio de inveja por todos aqueles destinos que pela última vez lhe passavam fugitivamente defronte dos olhos, comparava com eles a sua sorte e, sucumbindo por dentro à compaixão de si mesmo, julgava­se a mais desgraçada e desprezível das criaturas humanas.

Sim! Era preciso morrer!.

— Além disso, considerava o mísero, afirmei a Gaspar, sob palavra de honra, que partiria com ele para a Europa dentro de poucos dias; jurei igualmente que nunca mais me aproximaria de Ambrosina, e não tenho ânimo de ir, nem de ficar aqui sem ela!

E caminhava resolutamente para o ponto das barcas.

— Sim, sim, disse­lhe então dentro uma voz assustada e débil, que vinha do fundo do coração; tudo isso é verdade, mas tu bem podias dizer adeus àquela infeliz, antes de partires para sempre... Ela, coitada, está muito mal, e talvez se reanimasse um pouco só com saber que o teu último pensamento lhe foi consagrado... Seria uma obra de caridade!

— Nada disso! intervinha por sua vez a Razão, com uma voz terrível. Nada de imprudência! Se lá fores, será capaz muito de perdoar tudo e... Adeus, dignidade! Adeus vergonha!

— Juro­te que não! replicava o Coração, sempre com a sua vozinha hipócrita; prometo que não havemos de demorar ao lado d’Ela! Aquilo é chegar, fazer as despedidas, e pedir as suas ordens para o outro mundo!

— Sim! sim! bradava a Razão. Já te conheço as lábias, meu finório! Não é a mim que embaças! Está bem aviado quem se guiar por ti!

E o Coração protestou, jurou, suplicou, e afinal começou a soluçar.

A Razão reagiu ainda, apresentou seus melhores argumentos; mas o diabo do Coração, tanto fez, tanto chorou, tanto prometeu, que a tola da Razão teve de ceder, e Gabriel tomou o caminho da Praia do Russell.

E o rapaz, desde que se resolveu a ver pela última vez Ambrosina com pretexto de despedir­se dela, sentiu um grande alívio em todo o seu ser, e logo um suave contentamento a refrescar­lhe a alma; mas a Razão, que continuava de nariz torcido, aproveitou­se da distração dele e tirou sorrateiramente do seio um alfinete.

Gabriel não deu por isso e lá ia aos encontrões pela rua, procurando acompanhar a sua fantasia que, mal tomara o tímido aquela resolução, partira na frente, a galope, para junto de Ambrosina. E, donde estava, via­se ele já ao lado dela, sentindo­lhe o aroma e a doçura.

Imaginava então entre os dois um mudo encontro orvalhado de lágrimas. Ele afinal balbuciara o Adeus supremo, envolvendo­a num beijo de toda a alma, sombrio, imenso e silencioso como a própria morte que o esperava lá fora.

— Perdoa! exclamaria ela.

— Não! Eu te amo muito, para que te possa perdoar! Eu tudo sofreria, tudo resignado aceitaria de ti contanto que nunca foras senão minha!

— Perdoa! Perdoa!

— Não! Ouve! ouve, porque nunca mais nos veremos! Hei de antes de partir atravessar esse coração de pedra com um centelha da minha dor! hei de levar uma gota de fel ao íntimo do mármore da tua indiferença! hei de verter dentro de tua alma a minha lágrima mais sentida, mais amarga e mais ardente! E essa lágrima há de envenenar­te a alegria, há de rasgar­te as entranhas, porque vai armada com todas as garras do ciúme! No meio das tuas orgias, na febre das tuas noites de devassidão, há de essa lágrima cruel queimar­te os olhos e afogar­te o riso na garganta!

— Perdoa, Gabriel!

— Não! eu não sou Cristo, para te perdoar; nem tu és Madalena, para te arrependeres! Cristo perdoou sempre, porque nunca o traíram no seu amor! Amasse ele uma mulher como eu te amo, e, quando a tivesse junto ao peito, lhe cravasse ela o dente da perfídia, que ele a havia de esmagar com o pé, ou não seria homem! Tudo se perdoa, menos a traição do amor!

E Gabriel estugava cada vez mais o passo, enquanto seus doidos pensamentos prosseguiam na cena imaginária.

Ambrosina já não dava palavra, soluçava devorada de remorsos, ansiosa de perdão.

As lágrimas corriam­lhe quentes e apressadas dos olhos, como um desfiar de aljofar.

Gabriel gozava de imaginar aquela dor. Via­se altivo, e a ela sobranceira.

(continua...)

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