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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Estes quatro fatos, além de muitos outros, demonstram que é de antiga data essa triste rivalidade. Não se a sentia, porém, somente no seio agitado da população e do século, e ia não menos fortemente refletir no interior dos próprios conventos dos religiosos!

Nas contendas eleitorais dos frades capuchos do Rio de Janeiro, o ciúme entre os brasileiros e portugueses era sempre motivo de desgostos e de recriminações e ressentimentos. Os frades portugueses, que eram em número muito mais avultado, monopolizavam as prelazias e cargos superiores da ordem, e chegou a tal extremo esse espírito de exclusivismo que os religiosos brasileiros pediram à Santa Sé uma providência qualquer a bem dos seus direitos.

O padre-mestre ex-provincial e procurador geral da província de N. S. da Conceição do Rio de Janeiro, frei Fernando de S. Antônio, achava-se em Roma em 1719, e aí gozava de grande crédito pelas suas virtudes e sabedoria; e, comissionado pelos capuchos brasileiros, pediu e obteve do Papa Inocêncio XIII, para a corporação franciscana do Rio de Janeiro, um breve que, mandado observar pelo beneplácito régio, foi aceito por todos os religiosos e pela mesa definitória em sessão de 23 de outubro de 1719.

É esse o breve chamado muito propriamente da alternativa, e que vigorou até à declaração da independência do Brasil.

Segundo as disposições do breve da alternativa, quando havia um noviço para professar e era português, esperava este que outro noviço brasileiro concluísse o tempo do tirocínio para professarem ambos no mesmo dia. E do mesmo modo, em caso contrário, esperava o brasileiro pelo português, de maneira que o número dos religiosos europeus não excedesse o dos brasileiros, e vice-versa.

Quando em um capítulo saía eleito provincial um capucho nascido na Europa, no seguinte o sucessor tinha necessariamente de ser natural do Brasil, sob pena de nulidade de eleição, seguindo-se depois ao brasileiro outro que devia ser português, sine qua non.

A respeito dos guardiões, estabelecia-se a mesma regra.

Se, por qualquer circunstância, vagava algum dos cargos antes de terminado o tempo marcado nos estatutos, o cargo era preenchido por um substituto brasileiro ou português, conforme era português ou brasileiro o frade a quem se dava o substituto.

Para os colégios de estudos, enfim, os colegiais que se designavam eram em número igual, brasileiros e portugueses.

Tal foi o breve da alternativa.

As disposições singulares e curiosas desse breve, indicam bem claramente a que ponto havia chegado o ciúme entre brasileiros e portugueses nos conventos dos franciscanos da província de N. S. da Conceição do Rio de Janeiro.

A história da alternativa, que acabo de contar, é um novo e seguro fundamento para a proposição que emito e que vou repetir.

A rivalidade que tanto separava os brasileiros dos portugueses não teve a sua origem nas lutas da independência do Brasil, e, muito pelo contrário, a independência que nos engrandeceu e exaltou, a independência que nos deu um governo livre e nacional, o sol do Ipiranga, que foi para nós o sol da civilização, tem conseguido banir, pouco a pouco, essa rivalidade e esse ciúme que hoje se tornaram tão fúteis, tão mesquinhos, tão inconvenientes, que chegaram a ser inconfessáveis.

Não há mais nem pode mais haver metrópole nem colônia para Portugal e o Brasil. O Brasil e Portugal são duas nações irmãs, e embora separadas pelo Atlântico estendem seus braços e apertam as mãos amigas e nobres, não só sem ressentimento mas ainda com amor.

É tempo agora de irmos subindo pela escada de pedra que vimos ao lado esquerdo da portaria, e logo ao vencê-la, temos de parar um instante para contemplar um quadro que orna a parede principal e que representa a fé e a caridade.

A escada leva-nos ao primeiro andar, e termina dando entrada para uma sala que se chama o salão da portaria.

Nesta sala três quadros grandes em tela e com molduras douradas desafiam a nossa atenção; e não me sendo possível dizer-vos os nomes dos pintores que os executaram, limitar-me-ei a expor-vos o assunto de cada um deles, a dar-vos a leitura de algumas oitavas que os esclarecem e que devem ser conservadas em lembrança do poeta que as compôs e, enfim, contar-vos a história de um desses quadros, que não deixa de ser curiosa.

O quadro que está ao lado direito representa S. Francisco de Assis humilhado aos pés do bispo de Assis, no ato em que este queria beijar as mãos do santo patriarca.

O do centro, que é o maior e o mais importante, figura a morte de S. Francisco, que está estendido no chão com os braços cruzados sobre o peito, cercado de religiosos e da madre Jacoba, a qual, segundo refere a tradição, assistiu ao passamento do santo.

Deixemos, por ora, de parte o terceiro quadro, que é o do lado esquerdo.

(continua...)

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