Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Jurar que serei tua esposa ?... aqui ? perguntou Juliana aterrada.
— Sim... aqui... aqui mesmo !
— Oh, Fábio ! tu sabes o que me estás pedindo ?
— Jura .. eu o exijo !
— Aqui?... neste logar ? perguntou de novo Juliana com uma expressão de dôr profunda, cuja causa Fábio não comprehendia.
— Sim ! aqui mesmo, repetio o mancebo.
— Nã, não... só á face dos altares prestarei o juramento que me pedes : aqui... não; aqui... oh!... aqui eu juro-te somente que me mostrarei digna de ti.
— Faz-se tarde, Fábio ; e eu quero dormir esta noite o melhor e o mais bello dos somnos, para que amanhã venha o meu noivo encontrar-me digna delle ; voltemos pois.
A voz de Juliana tinha-se tornado tão doce e tão terna, o seu rosto tão sereno e apenas cheio de uma melancolia alias naturalmente explicavel, que Fábio ia pouco a pouco socegando.
De volta do jardim, os dous jovens demorárão ainda os passos para conversar mais algum tempo, Fábio procurando accender suaves esperanças no coração de Juliana, esta manifestando-se reconhecida a um amor tão generoso, e teimando sempre em dizer que se mostraria digna delle.
Ao entrar na sala, encontrarão Cândida que os esperava anciosa :
— Minha filha! exclamou ella.
— Minha mãi, disse Juliana, amanhã mandará apromptar o meu vestido de noiva.
Cândida olhou para Fábio.
— Peço-lhe sua filha em casamento, disse o generoso mancebo.
A pobre mãi apertou Fábio nos braços.
— Estás contente, minha filha ?...
— Oh ! muito ! respondeu Juliana ; e agora abençôe-me, minha mãi! ha longo tempo que não
sei o que é dormir, e hoje dormirei muito...
— Oh ! ainda bem !... Juliana ajoelhou-se e repetio :
— Minha mãi, abençôe-me !
— Que é isto ? de joêlhos ?...
— Sim, esta hora é solemne... Fábio veio dar uma nova direcção ás rainhas idéas, tornou-me outra... minha mãi, abençôe-me !
Cândida abençoou Juliana, e levantou-a em seus braços.
— Agora, Fábio, tu, disse a moça, tu és o meu noivo... beija-me, Fábio, beija-me...
Fábio aproximou-se de Juliana, e beijou-lhe a fronte.
— Oh ! beija-me ainda na face, e beija-me nos lábios para que eu te beije também !
Os dous jovens beijárão-se ternamente.
— Agora... bóa noite... adeus! disse Juliana, e retirou-se apressada para seu quarto.
— Estará louca?... perguntou Cândida confundida.
— Não, respondeu Fábio; Juliana está salva.
XXXII.
Reinava silencio profundo em casa de Cândida.
Fábio, antes de se retirar, tinha referido á extremosa mãi quaato se passara entre elle e Juliana, excepto somente a confissão que recebera do segredo fatal ; e Cândida, illudida como o mancebo pela tranquillidade da infeliz moça, concebera também por sua vez uma esperança de felicidade.
Fábio retirára-se pouco depois de meia-noite, e, passada uma hora, Cândida, indo observar sua filha, achou-a já no leito e dormindo um profundo somno. Satisfeita, alegre, feliz, a pobre mãi retirou-se para o seu quarto, e adormeceu abençoando Fábio, o anjo que salvará Juliana.
A noite adiantava-se.
As duas horas da madrugada Juliana ergueuse, e cautelosa foi assegurar-se de que sua mãi dormia, e logo de volta desceu pressurosa ao jardim.
Juliana não tinha dormido um só instante, e apenas simulara habilmente um somno tranquillo e pesado quando vira entrar sua mãi para observal-a.
Agitada por um tremor nervoso, com um olhar ardente e desvairado, com a respiração anciosa, a moça adiantou-se pelo jardim, colheu com tanto cuidado como rapidez, grande cópia de rosas odoriferas, de angélicas, de re-sedás, e de quantas flores encontrou notáveis pelo seu perfume activo e forte.
Quando vio que tinha já colhido tantas flores que serião de sobra para vinte ou mais ramalhetes, e que ella ia depositando no banco do caramanchão, tratou de conduzil-as em porções para o seu quarto.
Sem pronunciar uma palavra, sem soltar um gemido, sem derramar uma lagrima, Juliana recolheu-se emfim e vio-se no meio de uma enchente de flores.
Então com a mesma rapidez e com o mesmo zelo,cobrio de rosas, de angelicas, de bogaris, de jasmins de Cabo e de resedá francez todo o seu leito, encheu do ramalhete o seu toucador, e espalhou o resto das flores pelo assoalho ; sentou-se depois e escreveu duas cartas.
Levantou-se emfim a pobre moça, fechou cuidadosamente e trancou as portas do seu quarto, deitou-se vestida como estava sobre as flores, apagou a luz, e desatou a chorar.
Erão lagrimas acerbas e não de piedade ; era o ultimo pranto do desespero de uma moça formosa que tinha amado loucamente os prazeres e os gozos da vida.
Breves minutos depois, o ar viciado pelos aromas
activissimos que exhalavão as flores, começou a produzir os seus effeitos...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.