Por José de Alencar (1875)
Falta-lhe o espaço para mover-se. Às vezes o intervalo entre dois troncos, ou a aberta dos galhos, é tão estreita que não podem passar, nem o seu cavalo, nem êle, separados, quanto mais juntos. Mas é preciso que passem, e sem demora. Passam; mas para encontrar adiante outro obstáculo e vencê-lo.
Não se compreende êsse milagre de destreza senão pela perfeita identificação que se opera entre o cavalo e o cavaleiro. Unidos pelo mesmo ardente estímulo, êles permutam entre si suas melhores faculdades. O homem apropria-se pelo hábito dos instintos do animal; e o animal recebe um influxo da inteligência do homem, a quem associou-se como seu companheiro e amigo.
O pundonor do vaqueiro, que julga desdouro para si voltar sem o boi que afrontou-lhe as barbas, o campeão o compreende e o sente; essa corrida é também para êle um ponto de honra; e porisso não carece o seu ardor de ser estimulado.
Êsses dois entres assim intimamente ligados no mesmo intuito, formando como o centauro antigo um só monstro de duas cabeças, separam-se quando é mister para tornarem-se pequenos e passarem onde não caberiam juntos. Cada um cuida de si unicamente, certo de que o outro basta-se; mas ambos aproveitam da observação do companheiro, e reunem seus esforços no momento oportuno.
É assim que explica-se a rápida percepção que chega a ponto de parecer impossível, e a prontidão ainda mais prodigiosa do movimento com que o cavalo e o cavaleiro se esquivam aos embates, e sulcam por entre as vagas revôltas do oceano.
Já iam muito pela mata a dentro, quando o Dourado tentando um esfôrço para escapar, meteu-se imprudentemente por um bamburral quase impenetrável. Êle bem vira que essa brenha era urdida de grossas enrediças de japecanga, capazes de arrastar o mais grosso madeiro, de tão fortes que são. Mas se pudesse romper, estaria salvo; porque o vaqueiro não conseguiria abrir caminho sem o auxílio da faca.
Ficou, porém, enleado no labirinto; e quando fazia os maiores esforços para despedaçar aquelas cadeias com as patas e os chifres, chegou Arnaldo ao pé do bamburral. Logo percebeu o sertanejo que o boi estava emaranhado; e que êle facilmente podia alí agarrá-lo.
Mas o moço sertanejo entendeu que não era generoso, nem mesmo leal, aproveitar-se daquele acidente para pegar o boi que êle queria vencer por seu esfôrço e valentia, e não pelo acaso. Assim parou à espera que o touro se desvencilhasse dos cipós.
— Não dou em homem deitado, camarada. Safe-se da embrulhada em que se meteu, meu Dourado, e tome campo; que daquí dêste arção, ninguém o tira. Digo-lhe eu, Arnaldo Louredo, que nunca mentí a homem, quanto mais a boi.
Isto dizia o sertanejo a rir, e o Corisco parecia entendê-lo, pois olhava o Dourado com um certo ar de mofa e soltava uns relinchos mui alegres, que se diriam estrídulas gragalhadas.
A êstes relinchos do Corisco responderam a alguma distância outros cavalos, mas com a voz abafada. Arnaldo aplicou o ouvido para bem distinguir aqueles sons e marcar a direção e lugar presumível donde vinham.
Entretanto o Dourado conseguira desembaraçar-se da meada de enrediças, e astutamente espreitava a ocasião de espirrar daquele refúgio, de modo a ganhar parte do avanço que perdera.
Arnaldo não teve tempo de demorar-se na escuta. O boi arrancara de novo e êle seguia-lhe o trilho, certo de que já não lhe escapava. Com efeito, ao cabo de um estirão de carreira impetuosa, o destemido vaqueiro alcançou o barbatão e pôs-lhe a mão sôbre a cauda; mas não quis derrubá-lo. Êle tratava o Dourado com a gentileza que os cavaleiros usavam outrora no combate; a derruba era uma afronta que não infligiria a um corredor de fama como aquele.
Emparelhou o sertanejo seu cavalo com o boi, e passando o braço pelo pescoço dêste, continuaram assim a corrida por algum tempo ainda. Afinal o boi parou; conheceu que fugia debalde: já tinha na cabeça o laço que o vaqueiro lhe passara rapidamente.
Arnaldo prendendo a ponta do laço ao arção da sela, tirou o boi para o limpo, a fim de orientar-se e ver o rumo em que ficava a colina escolhida para ponto de parada da comitiva. Surpreendeu-o a impassibilidade do Dourado, que permanecia grave e taciturno.
Estava o sertanejo muito acostumado a ver a fôrça moral do homem dominar não só o boi, como outras feras mais bravias, a ponto de abater-lhes de todo a resistência. Mas ainda não tivera exemplo daquela indiferença. O barbatão não parecia o touro que pouco antes corcoveavapelo mato, e sim um carreiro tardo e pesado.
Isso levou-o a examinar o boi para verificar, se ficara ferido ou estropeado da carreira, como acontece frequentemente. O Dourado estava são; mas triste e abatido. Grossa lágrima, porventura arrancada por alguma vergôntea que lhe ofendera a pupila, corria da pálpebra.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.