Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– A culpa foi também vossa, exclamou Cândido; quem vos inspirou o fatal pensamento de ir patentear o estado do meu coração àquela criança?... porque viestes tirar daqui os versos que eu escrevia em minha loucura?... oh!... eis aqui a vossa e minha obra!... tiveram piedade de mim: despediram-me, e não me mandaram correr pelos escravos, oh! foram piedosos! respeitaram a linha com que, em seus tratos e modos, distinguem um pobre de um cão!...
– Cândido!... é possível o que estais dizendo?...
– Pensais que eu me lastimo! ...continuou o mancebo; pois já não confessei que era um castigo? julgais que me resta algum ressentimento?... não: é um remorso o que me resta!
– Oh! não é isso, exclamou Irias; não é isso o que te quero perguntar; o que eu desejo é saber se tu zombas, se estais em ti, se não inventas?...
O mancebo riu com um rir terrível.
– Eles despediram-te?...
– Como a um pobre se despede.
– Eles?... ela?!
– Por que vos admirais?...
– Ela te ama.
Cândido tornou a rir mais terrivelmente ainda do que há pouco.
– Ela te ama! repetiu com acento de profunda convicção a velha Irias.
– Não! bradou o moço; não, e não! se é uma consolação que pretendeis derramar na minha alma, minha alma rejeita uma consolação em que não pode acreditar.
– É uma verdade, o que eu digo... uma verdade que o futuro te há de demonstrar.
– Então vós vos enganais, senhora; estais ainda menos adiantada que eu no conhecimento deste mundo, onde tendes vivido três vezes mais do que o desgraçado que adotastes.
A velha fez com a cabeça um movimento de impaciência, e ia falar.
– O que é, continuou Cândido sem querer ouvir Irias, o que é que vos prova o amor dessa moça?... quê?... não ordenar que me lançassem fora de sua casa no momento mesmo em que tivestes a imprudência de lhe declarar o meu amor?... sofrer que eu para ela algumas vezes olhasse, e algumas vezes também ter olhado para mim?... engano e ilusão, senhora!... essa mulher é como as outras. A mulher se apraz de merecer o amor, a admiração da criança, do moço e do velho; todos eles incensam o amor-próprio, a vaidade mesmo, que é a corda mais vibrante do coração da mulher! amai-me! admirai-me! diz ela; porém pagar esse sentimento que querem inspirar com outro sentimento igual, é mui diverso do que isso. Quem confunde amor com vaidade dirá também, como vós dizeis, que eu fui amado pela neta de Anacleto.
– Então esse amor entra porventura na ordem dos impossíveis?.
– Dos impossíveis absolutos não; porém no pé em que se acha a sociedade, entra na ordem dos impossíveis morais.
– Como?... meu querido Cândido, que te falta para ser amado?...
– Falta-me aquilo que é hoje no mundo a primeira das virtudes; a virtude que encanta homens e mulheres; que abre-nos a porta dos empregos e das honras; que abre-nos corações ao amor... falta-me a virtude a quem se está rendendo um culto idólatra; falta-me a riqueza.
– Oh!...
– Pois então?... aquela mulher não tem olhos para ver que eu sou pobre, e vendo-o, não tem inteligência para compreender que amar um pobre é uma loucura?... ela fez o que devia.
– Desvairas...
– Não; estou calmo, falo com a frieza da razão. A mulher é vaidosa sempre, quer ser amada, admirada por sua beleza e por seus vestidos. Quer para seu marido um homem em alta posição para elevar-se ela também; quer estar de alto, coberta de sedas e de brilhantes, deslumbrando os homens e sendo invejada pelas outras mulheres. No casamento isto é tudo, e o amor é quase nada. E a mulher, que isto consegue, lá vai... incensada... feliz... deslumbradora... invejada... ainda que seu marido seja um ente abjeto e estúpido; que abjeto!... que estúpido!... não há abjeção nem estupidez onde há riqueza. Os altos funcionários, que nunca estão em casa para receber o artista de mérito, o velho soldado, e o honrado servidor do país, o estão sempre para ir ajudar a descer da carruagem o milionário analfabeto. Que queríeis que fizesse a mulher?... esqueceu a missão do céu; ornou-se com os prejuízos e as douradas vilezas da terra... embora... o mundo bate palmas!...
– Isso não é falso; mas é exagerado, respondeu tristemente a velha Irias.
– Oh! não... é a própria verdade, mal pintada ainda. Perguntai a todos os que sofrem, perguntai a vós mesma. A sociedade não tem pejo!... hoje despreza um moço humilde, sem educação, que vive em miséria, e que para viver se sujeita a trabalhar como um escravo, e que por isso mesmo é indignamente ridicularizado; bem... amanhã esse moço, que compreendeu a época em que nasceu, enxergou... descobriu um meio que lhe oferece imensos... incalculáveis lucros; mas esse meio, sim, é que é desonesto; é que desdoura, é que rebaixa o homem diante da moral e da própria consciência... que importa?... o moço aproveitou-o... foi feliz. E depois de amanhã, senhora, quando o moço sai no seu belo carro, os grandes da terra, os nobres, os ministros e todos enfim o saúdam respeitosos, e vão depois festejá-lo...
curvar-se diante dele!... isto é mentira ou verdade?...
A velha guardou silêncio.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.