Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Quase ao mesmo tempo em que Ema e Lúcia punham termo às suas observações sobre o salvador de Honorina, Hugo entrou no quarto pé por pé.
— Minha mãe, como vai ela?...
— Dorme tranqüilamente.
— Graças a Deus! disse Hugo.
E, chegando-se para o leito em que descansava sua filha, ele... pobre e amante pai, que se culpava de todas as desgraças daquela fatal noite, foi, como o faziam as três senhoras, beber ao pé dos lábios de Honorina o ar de seu bafo, como um favônio de esperança e de vida; e depois, temendo muito acordá-la daquele sono reparador, outra vez com seu sagrado amor de pai, com as faces cobertas de lágrimas, beijou com ternura e fervor as belas madeixas de Honorina, que úmidas caíam pela almofada.
— E ele?... disseram ao mesmo tempo Ema e Lúcia, ao ver que Hugo se desprendia do leito da filha.
— Não... não... não façam bulha, balbuciou o extremoso pai com um receio infantil desenhado no rosto; não a despertem... venham para fora, que eu falarei então.
Ema e Lúcia logo se ergueram, saíram do quarto com Hugo, e dirigiram-se para a sala; Raquel, que não menos curiosa se mostrava pela sorte do salvador de sua amiga, encaminhou-se depois de vê-los desaparecer, como quem pretendia ir furtivamente escutá-los; porém, antes de chegar à porta, voltou de novo ao lugar que ocupava, pois um brando suspiro tinha estremecido nos lábios de Honorina.
Apenas chegados à sala, Hugo atirou-se, soluçando fortemente sobre o canapé, e com uma como delirante demonstração de prazer ele exclamou repetidas vezes:
— Está salva!... está salva!... minha filha está salva!...
Era o amor de pai! o amor de pai, que por toda a parte transpirava nele... pelos soluços que o sufocavam... pelas lágrimas que de seus olhos corriam, pelo riso que em seus lábios brincava. O amor dos pais é assim, e é ainda belo, grande, majestoso, como nenhum outro. — Está salva, meu filho, disse Ema; e Deus te há dado esta lição para te emendares. — Sim, sim, minha mãe, contanto que me reste Honorina, eu lhe prometo tudo, minha mãe!... deixaremos esta casa... não veremos mais esta praia... iremos de uma vez para a corte, e lá Honorina estará sempre debaixo dos olhos de minha mãe...
— E ele, senhor?... perguntou Lúcia ansiosa, e ele?...
— Ele?... é verdade: eu tinha vindo para falar dele...
— E então?...
— Nós seguimos os seus passos: à mercê de nossos fachos acompanhamos suas pisadas; oh! era impossível perdê-las de vista... estavam horrivelmente marcadas!... sobre cada uma delas havia gotas de sangue...
— Oh!... desgraçado!... exclamaram as duas.
— Fomos indo assim até que chegamos ao sítio da praia, onde se acham reunidas as faluas; aí toda a esperança de encontrá-lo se perdeu: alguns patrões viram-no embarcar-se, e mandar, a despeito do horrível temporal, abrir as velas e sair...
— Pobre homem! quem sabe se estará ainda vivo?!
— Oh! senhora, exclamou Lúcia, não diga semelhante coisa!...
— Mas por que se esconde ele... por que se furta tão misteriosamente a nossos olhos?!... Era essa uma pergunta à qual nenhum dos três se achava em estado de responder, por isso contentaram-se com guardar triste e profundo silêncio.
Enquanto isto se passava na sala, Raquel, ouvindo o suspiro que estremecera nos lábios de sua pobre amiga, foi outra vez de manso sentar-se junto dela; de novo tomou entre as suas uma das mãos de Honorina, que, ao doce contato, fez um movimento e abriu os olhos. Raquel estremeceu como se temesse haver cometido uma grande falta; Honorina talvez a compreendeu, pois que sossegou-a com o meigo sorrir de seus lábios.
— Honorina, tu estás muito melhor, não é assim?... perguntou Raquel.
— Sim, Raquel... agora só falta a cabeça... que me anda à roda... e me pesa muito...
— Está bem... não fales mais: isso há de passar... dorme, Honorina.
Honorina, parecendo obedecer ao conselho de sua amiga, fechou os olhos; mas bem depressa os abriu de novo, e uma ligeira nuvem cor-de-rosa se espalhou em suas faces.
— Raquel, disse ela com voz comovida e trêmula, Raquel... perdoa-me, porém sossegame...
— Que queres, pois, Honorina? fala.
— Tu viste?... perguntou ela, enrubescendo ainda mais.
— Quem, Honorina?
— O homem que me salvou?...
Aquela pergunta deveria ter feito mal a Raquel, porque ela se tornou de repente mais pálida do que há pouco estava Honorina, e foi quase gemendo que respondeu:
— Era... ele.
Honorina, como se acabasse de experimentar a influência de um choque elétrico, estremeceu toda, e com viva expressão de agradecimento levou a mão de sua amiga até os lábios.
— Dorme agora, Honorina.
Dir-se-ia que a moça cedera ao encanto da voz de Raquel; pois pareceu imediatamente adormecida. Momentos depois Ema e Lúcia entraram de novo no quarto.
— Como vai ela?... perguntou Ema.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.