Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Ouviam-se, no silencio fresco da madrugada, o bater inalterável do relógio e os bufidos suspirados de Ernestina, que parecia dormir um sono de ébrio.

- Que mulher impertinente !... considerou ele, atirando com a pena e deixando pender para trás a cabeça a fitar o teto.

E pensou:

- Quando eu me lembro que a esta criatura nada falta - casa, rendimentos, criados, e que ela se vem meter aqui, possuída de esperanças injustificáveis... nem sei que juízo forme a seu respeito!... Será isto o verdadeiro amor?.. . Talvez, mas, se assim é, arrenego dele, porque não conheço coisa mais insuportável!... Ainda se ela não fosse tão desengraçada!... tão tola!... Mas, valha-me Deus! nunca vi mulher mais ridícula quando tem ciúmes; ainda não vi ninguém fazer cara tão feia para chorar!... Se ela fosse jeitosa ao menos; mas não tem gosto para nada, não sabe pôr um vestido, não sabe por um chapéu; e, em vez de endireitar com o tempo, parece que vai ficando cada vez mais estúpida! Não! Definitivamente é uma mulher impossível, apesar de toda a sua dedicação! E, para se divertir, pôs-se a lembrar as asneiras dela. Ernestina não dizia nunca "eu fui", era "eu foi"; pronunciava pãos, razães, tostãos e gostava muito de preceder com um a certos verbos, como divertir, divulgar, reunir, retirar e outros; como também não pronunciava as letras soltas no meio da palavra. "Obstáculo" em sua boca era ostáculo, "obsta" era osta e assim por diante. E a respeito dos tempos do verbo? Se ela queria dizer "entremos", dizia entramos e vice-versa; perguntava - "tu fostes? - tu fizestes?" Uma calamidade!

Além disso, ultimamente dera para engordar, por tal forma que parecia ainda mais baixa e mais desairosa.

Não era feiazinha de rosto, isso não; mas em toda a sua fisionomia, como no resto, não se encontrava um só traço original, distinto, impressionável. Vestia-se, calçava-se e penteava-se como toda a gente, e só conversava a respeito de vulgaridades, sem ter nunca uma frase própria; rindo quando repetia uma pilhéria já muito estafada, e desconfiando sempre que lhe diziam qualquer coisa que ela não entendesse. Uma lesma! E Teobaldo a fazer estas considerações; e ela lá dentro a ressonar, agitada de vez em quando pelo sonho; ora gemendo, ora articulando palavras incompletas e destacadas. - O bonito será se ela adoece deveras aqui em casa!... considerou ele. Era só o que faltava!

E, notando que amanhecia, ergueu-se da mesa, lavou-se, mudou de roupa e tomou um cálice de conhaque. Já de chapéu e de bengala, ia a sair, quando Ernestina se remexeu na cama, depois assentou-se e perguntou com a voz muito quebrada e fraca:

- És tu, Teobaldo?

- Que deseja? interrogou ele secamente.

- Não te recolhes?

- Não, porque me tomaram a cama.

- Não sejas mau.

- Ora!

- Para que me tratas desse modo?... Estou tão incomodada, tão doente... Se soubesses como tenho sofrido!...

- Sofre por teima! A senhora podia perfeitamente estar em sua casa, feliz e tranqüila.- É exato; a culpa é minha. Que horas são?

- Amanhece.

- Que? Pois já se passou a noite inteira? Ah! agora me recordo que estive sem sentidos.- Adeus.

- Vais sair?

- Vou.

- Por que não te demoras um pouco? Faze-me um bocado de companhia...

- Não, filha, preciso sair. Adeus.

- Escuta: foste sempre ao baile?

- Fui.

- Divertiste-te muito?

- Sim.

- Namoraste?

- Adeus.

- Vem cá.

Ele se aproximou dela com má vontade.

- Acho-te tão aborrecido, meu amor; não me trates com essa indiferença.- Se lhe parece!

- Que?

- Que não devo estar aborrecido.

- Por minha causa?

- Naturalmente.

- Pois então vai-te embora, vai! Nunca mais te aborrecerei!

Teobaldo apertou-lhe a mão. Ela pediu-lhe um beijo, ele negou-lho e saiu cantarolando um trecho de ópera.

Logo que se perdeu no corredor a voz do moço, Ernestina ergueu-se e foi, amparando-se aos móveis e à parede, até à mesa, onde estavam, ao lado do candeeiro de petróleo ainda aceso, os versos há pouco escritos por Teobaldo. Leu-os, chorou e, assentando-se no lugar em que ele estivera, tornou da pena e lançou em uma folha de papel o seguinte, pouco mais ou menos:

Declaro que sou a única autora de minha morte e declaro também que reconheço por meu legitimo herdeiro o Sr.. Teobaldo Henrique de Albuquerque, morador nesta casa. O meu testamento, no qual lego-lhe todos os meus bens, acha-se nas notas de tabelião Ramos.

Datou, assinou, pôs a folha de papel sobre a cômoda e, tornando à mesa, agarrou o candeeiro, desatarrachou-lhe a griseta, lançou esta para o lado sem lhe apagar a torcida e, julgando-se cheia de resolução, levou aos lábios o reservatório de querosene.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6768697071...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →