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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

A praia estava deserta. Caia um chuvisco. Ventos frios sopravam do mar. O céu era um fundo negro, de uma só tinta; do lado oposto da bala os lampiões pareciam surgir d’água, como algas de fogo, mergulhando bem fundo as suas trêmulas raízes luminosas.

— Onde está ela? perguntou o Firmo, sem se agüentar nas pernas. — Ali mais adiante, perto da pedreira. Caminha, que hás de ver!

E continuaram a andar para as bandas do hospício. Mas dois vultos surdiram da treva; o Pataca reconheceu-os e abraçou-se de improviso ao mulato.

— Segurem-lhe as pernas! gritou para os outros.

Os dois vultos, pondo o cacete entre os dentes, apoderaram-se de Firmo, que bracejava seguro pelo tronco.

Deixara-se agarrar — estava perdido.

Quando o Pataca o viu preso pelos sovacos e pela dobra dos joelhos, sacou-lhe fora a navalha.

— Pronto! Está desarmado!

E tomou também o seu pau.

Soltaram-no então. O capoeira, mal tocou com os pés em terra, desferiu um golpe com a cabeça, ao mesmo tempo que a primeira cacetada lhe abria a nuca. Deu um grito e voltou-se cambaleando. Uma nova paulada cantou-lhe nos ombros, e outra em seguida nos rins, e outra nas coxas, outra mais violenta quebrou-lhe a clavícula, enquanto outra logo lhe rachava a testa e outra lhe apanhava a espinha, e outras, cada vez mais rápidas, batiam de novo nos pontos já espancados, até que se converteram numa carga continua de porretadas, a que o infeliz não resistiu, rolando no chão, a gotejar sangue de todo o corpo.

A chuva engrossava. Ele agora, assim debaixo daquele bate-bate sem tréguas, parecia muito menor, minguava como se estivesse ao fogo. Lembrava um rato morrendo a pau. Um ligeiro tremor convulsivo era apenas o que ainda lhe denunciava um resto de vida. Os outros três não diziam palavra, arfavam, a bater sempre, tomados de uma irresistível vertigem de pisar bem a cacete aquela trouxa de carne mole e ensangüentada, que grunhia frouxamente a seus pés. Afinal, quando de todo já não tinham forças para bater ainda, arrastaram a trouxa até a ribanceira da praia e lançaram-na ao mar. Depois, arquejantes, deitaram a fugir, à toa, para os lados da cidade.

Chovia agora muito forte. Só pararam no Catete, ao pé de um quiosque; estavam encharcados; pediram parati e beberam como quem bebe água. Passava já de onze horas. Desceram pela Praia da Lapa; ao chegarem debaixo de um lampião, Jerônimo parou suando apesar do aguaceiro que cala.

— Aqui têm vocês, disse, tirando do bolso as quatro notas de vinte mil-réis.

Duas para cada um! E agora vamos tomar qualquer coisa quente em lugar seco. — Ali há um botequim, indicou o Pataca, apontando a Rua da Glória.

Subiram por uma das escadinhas que ligam essa rua à praia, e daí a pouco instalavam-se em volta de uma mesa de ferro. Pediram de comer e de beber e puseram-se a conversar em voz soturna, muito cansados.

A uma hora da madrugada o dono do café pô-los fora. Felizmente chovia menos. Os três tomaram de novo a direção de Botafogo; em caminho Jerônimo perguntou ao Pataca se ainda tinha consigo a navalha do Firmo e pediu-lha, ao que o companheiro cedeu sem objeção.

— É para conservar uma lembrança daquele bisbórria! explicou o cavouqueiro, guardando a arma.

Separaram-se defronte da estalagem. Jerônimo entrou sem ruído; foi até à casa, espiou pelo buraco da fechadura; havia luz no quarto de dormir; compreendeu que a mulher estava à sua espera, acordada talvez; pensou sentir, vindo lá de dentro, o bodum azedo que ela punha de si, fez uma careta de nojo e encaminhou-se resolutamente para a casa da mulata, em cuja porta bateu devagarinho.

Rita, essa noite, recolhera-se aflita e assustada. Deixara de ir ter com o amante e mais tarde admirava-se como fizera semelhante imprudência; como tivera coragem de pôr em prática, justamente no momento mais perigoso, uma coisa que ela, até ai, não se sentira com animo de praticar. No intimo respeitava o capoeira; tinha-lhe medo. Amara-o a principio por afinidade de temperamento, pela irresistível conexão do instinto luxurioso e canalha que predominava em ambos, depois continuou a estar com ele por hábito, por uma espécie de vicio que amaldiçoamos sem poder largá-lo; mas desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranqüila seriedade de animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior. O cavouqueiro, pelo seu lado, cedendo às imposições mesológicas, enfarava a esposa, sua congênere, e queria a mulata, porque a mulata era o prazer, era a volúpia, era o fruto dourado e acre destes sertões americanos, onde a alma de Jerônimo aprendeu lascívias de macaco e onde seu corpo porejou o cheiro sensual dos bodes.

(continua...)

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