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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

E a noite absorvia no seu negro silêncio aquele mistério de ternura. Ouvia­se a voz sibiliante dos ventos, que esfuziavam por entre as ripas do telhado, e o marulhar monótono da costa, cujas ondas morriam ali perto, à pequena distância da casa.

Ambrosina, afinal, serenou e adormeceu tranqüila, abraçada estreitamente à doce companheira.

No dia seguinte, estavam muito amigas e muito unidas. Aquela, entretanto, continuava prostrada pela febre. Jorge, por conta própria, resolveu chamar o patrão, o Médico Misterioso, para ver a enferma.

Alfredo retirou­se muito cedo para as suas obrigações desfazendo­se em agradecimentos e protestos de estima; a velha Benedita pôs­se em ação, para tratar do almoço e dos arranjos da casa, e Laura encarregou­se de prestar à enferma todos os cuidados que a moléstia exigia.

Era de ver a solicitude, o amor, com que a carinhosa enfermeira trazia o caldo à sua bela valida. Laura punha nesses pequeninos serviços todo o segredo da sua meiguice. Que mimo nas palavras! Que graça no repreender a doente por fazer cara feia ao remédio!

Ambrosina pagava esses desvelos com beijos. Laura fazia­se então vermelha e uma ligeira vertigem lhe entrecerrava as pálpebras.

Pela volta das quatro da tarde, apareceu Gaspar e receitou, a despeito dos protestos da doente.

Ficou de voltar.

Ao sair, notaram­lhe um olhar estranho. Gaspar ia preocupado. No dia seguinte, depois da segunda visita à casa do seu cocheiro, chamou a este de parte e disse­lhe:

— Jorge! creio que tens bastante amor à tua filha.

— Está claro, patrão! por quê?

— Porque vais perdê­la, se a deixares na companhia de Ambrosina.

Jorge abriu os olhos e ficou pasmado.

O pobre homem não compreendera.

Entretanto, duas semanas depois que Ambrosina se achava hospedada pelo pai de Laura, Gabriel vagava pelas ruas, a passo frouxo; mãos cruzadas atrás, o chapéu derreado para a nuca, o olhar caído, e por toda a fisionomia uma grande expressão de tédio.

Ao primeiro golpe de vista, percebia­se logo que alguma agonia profunda lhe pungia o coração, que uma idéia fixa se lhe havia agarrado ao cérebro e lhe chupava os miolos, como caranguejos aos dos cadáveres de náufragos, que o mar vomita à praia.

O caranguejo que lhe chupava os miolos era a lembrança de Ambrosina. O desventurado não conseguia furtar se à tensão dolorosa, que a linda malvada lhe impunha ao espírito com a sua ausência. Tudo lhe trazia a idéia dela. Um perfume, um trecho de música, uma frase, um modo de olhar, um tom de rir; tudo era pretexto para mil recordações, mil desejos, mil ânsias de amor despedaçado.

E Gabriel admirava­se até de que houvesse homens que tivessem conseguido viver até ali, sem nunca experimentarem a deliciosa intimidade do amor de Ambrosina. Como lograriam esses desgraçados não morrer de tédio, ficando sempre na ignorância dos mistérios daquela carne, do gosto daqueles lábios, do encanto daquele colo e da atração do abismo daqueles olhos, negros e profundos como a noite?...

E a pensar nestas cousas, esquecia­se de tudo e desabava num desânimo sombrio, em cujo fundo de charco estava a idéia do suicídio.

Morrer! É tão doce cuidar em morrer, quando se tem um duro desgosto ferrado ao coração!... É tão grato ao espírito, sobrecarregado da mais bela dor, pensar num imperturbável descanso.... É tão leve a morte, quando a existência nos pesa como grilhetas... E por que não haveria ele de morrer? Acaso deixaria na terra alguém que vivesse da sua vida!... Teria ele mãe, porventura, que ficasse com o coração para sempre rasgado de meio a meio? ou pelo menos alguma tímida irmã, cuja inocência caísse ao desamparo defronte do cadáver do irmão? A quem, pois, prejudicaria com a sua morte?... A ninguém! Gaspar, por muito seu amigo que fosse, haveria de conformar­se com ela, e de resto já tinha o sentimento petrificado pelas dores velhas! Sim, o seu suicídio era lógico e necessário; era, daquele seu indigno desespero, a única saída que não ia dar vergonhosamente aos pés de Ambrosina!

Era preciso morrer!

E, caminhando pela rua, ia amadurecendo esta idéia, com que se propunha destornilhar a outra do seu pobre espírito cansado.

Sim! pensava ele; era chegar à estação das barcas de Niterói, tomar a primeira destas que aparecesse, fazer­se ao largo e, quando tivesse a certeza de não o poderem salvar — zás! um mergulho na baía! E pronto!

Sim, porque no fim de contas, a morte, nas suas circunstâncias, era inevitável! Ele só poderia continuar a viver em companhia de Ambrosina; ora, Ambrosina era simplesmente uma mulher indigna, uma mulher infame!

E ele, apesar de saber disso, amava­a cada vez mais... Logo, ou Ambrosina tinha que regenerar­se, o que seria muito difícil; ou ele tinha de morrer, o que era facílimo! Por conseguinte, não havia refletir — era aviar!

E Gabriel encaminhou­se para a ponte das barcas de Niterói.

(continua...)

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