Por Manuel Antônio de Almeida (1852)
Algumas pessoas não deixaram de estranhar e recear a presença do Leonardo naquela ocasião e naqueles trajes logo depois da saída do major; porém a comadre a todos tranqüilizou, dizendo que tendo ele obtido licença no quartel, por não estar de serviço naquele dia, viera assistir ao batizado de sua irmã.
— Ele é meio doido, repetia ela a todos, mas é muito amoroso, e nunca se esquece da família,
Leonardo confirmava esses protestos da comadre, e ia entretanto tomando parte na brincadeira, uma vez que contra as suas esperanças todos o haviam recebido bem em casa. À proporção que se ia esquentando no prazer do fado e das cantigas começou o Leonardo a sentir remorsos pelo papel de judas que ali estava representando: quando olhava para o Teotônio, que desde que entrara lhe havia feito dar tão boas risadas, pungia-lhe o coração lembrando-se que ele próprio o havia de entregar ao major. Não poucas vezes lhe passou pela cabeça dar-lhe escapula avisando-o, porém a disciplina, o papai lelê, vinham-lhe à idéia, e hesitava.
Enquanto era assaltado por estes pensamentos olhava repetidas vezes para o Teotônio.
Este, que nada tinha de tolo, desconfiou da coisa; não sabemos por que instinto leu o que pensava o Leonardo, e pôs-se em guarda. O Leonardo tomou repentinamente sua resolução.
— Ora, adeus, disciplina, disse consigo; hei de dar escapula ao homem, seja lá como for.
E do lugar em que estava acrescentou alto:
— Ah! Sr. Teotônio, quer saber uma coisa? Pois se puser o pé daquela porta para fora, o major põe-lhe a unha, que para isso está ele à sua espera, e para aqui me mandou...
— Ó diabo! exclamaram todos.
— Mas nada de sustos; tudo se há de arranjar, que tenho eu boa vontade disto.
— Mas não te comprometas, rapaz, acrescentou a comadre ao ouvido do Leonardo; olha que o major não é de graças, e daí te pode vir mal. — Ora, tenho pena dele só por aquelas caretas.
Juntaram-se então os dois, Leonardo e Teotônio, e juntos concertaram o seu plano de modo que este escapasse ao major, e que aquele não ficasse comprometido.
Estava já a noite muito adiantada, ordenaram os dois que saíssem ao mesmo tempo muitos convidados, e o Leonardo, partindo adiante deles, foi correndo ter com o major.
— Aí vem o bicho, Sr. major.
— Cerca, cerca! disse o major.
E cada um se dividiu para seu lado.
O major colou-se à porta de um corredor, e pôs-se de olho alerta.
Veio-se aproximando ao major um vulto assobiando tranqüilamente o estribilho de uma modinha. Quando se achou em pequena distancia o major deu um salto donde estava e segurou-o.
Um ai franzino se fez ouvir, acompanhado de um:
— Me largue! Que é isto?
O major prestou atenção, não tendo reconhecido a voz do Teotônio, e viu que tinha segurado um pobre corcunda, aleijado, ainda em cima, da perna direita e do braço esquerdo.
— Ora vá-se para o inferno, disse o major; suma-se daqui. Também não sei o que andam fazendo a estas horas pelas ruas estas figuras.
O aleijado safou-se apressadamente livre do susto, e lá foi continuando a assobiar o seu estribilho.
Fez-se depois disto o mais profundo silêncio, e o major não viu mais passar senão os convidados da patuscada, não vendo entre eles o Teotônio.
Então ardeu com o caso; e reunindo os granadeiros disse para Leonardo:
— Ele não saiu...
— Saiu, replicou este; até de jaqueta branca e chapéu de palha: eu o vi tomar ali para a porta onde estava o Sr. major.
— De jaqueta branca e chapéu de palha? perguntou o major.
— Sim, senhor, e de calça preta: não o peguei porque logo vi que não havia de escapar ao Sr. major.
— Ah! patife, patife, resmungou: destas nunca levei... Era o corcunda, o aleijado...
— Ele sabe fazer muito bem de corcunda e de aleijado, disse um dos granadeiros; já o vi uma vez fazer isso, que era mesmo tal e qual...
Era com efeito o Teotônio o aleijado que o major tinha segurado.
O Leonardo ria-se às furtadelas do logro que levara o major.
Não tardou porém muito tempo que lhe não amargasse aquele prazer, vindo o major a saber que tudo aquilo se fizera de combinação com ele.
CAPÍTULO XLIV
DESCOBERTA
(continua...)
ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16987 . Acesso em: 8 mar. 2026.