Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
– Sim, sim... Mas não caia noutra. Pode retirar-se sem receio. E doravante, não se fie em frades para dirigi-los em empresas desta ordem.
Aí tendes duas anedotas cuja veracidade asseguro.
O assunto que mereceu as honras de um breve do Santo Padre é muito mais sério, É, sem mais nem menos, a história da alternativa.
Preparai-vos para ouvi-la, enquanto descanso um pouco.
III
Aqueles que não têm estudado a História do Brasil, e que mal apenas conhecem dela os fatos contemporâneos ou recentemente passados, atribuem às lutas que tiveram lugar na época da proclamação da nossa independência e às manifestações que de alguns anos a precederem as novas e as ardentes aspirações dos brasileiros acendidas depois da chegada da família real à terra de Santa Cruz, e a essa mudança provisória da sede da monarquia portuguesa; atribuem, enfim, ao primeiro quartel do século XIX o princípio do ciúme e da rivalidade entre os portugueses e os brasileiros.
É um erro que convém que desapareça, erro que se deve corrigir, por que, além do mais, calunia a nossa independência, que foi um acontecimento admirável pela sua importância e majestade, e ainda mais, pelos seus resultados civilizadores, nobres e generosos.
A origem daquela rivalidade é igual e semelhante à de outras da mesma natureza que se observam no mundo. Onde houve colonização dominadora e subseqüente regeneração política do país colonizado, onde houve conquista estrangeira e posterior triunfo da nacionalidade ofendida, rompeu e existe o ciúme entre o povo conquistador e o povo regenerado.
É por isso que existe rivalidade entre franceses e ingleses, entre espanhóis e portugueses, entre italianos e austríacos, entre espanhóis e americanos das antigas colônias de Espanha, entre ingleses e americanos do norte, entre muitos povos ainda.
A independência do Brasil, porém, em vez de dar nascimento ao ciúme a que me refiro, preparou, ao contrário, o seu arrefecimento. Nos anos de maior fervor das idéias de separação do Brasil, nos dias de esforço e luta, naturalmente o ciúme tomou proporções que lhe deram até o caráter de ódio. Mas, conseguida a vitória, reconhecida a independência, começou a civilização do país a dar os seus frutos, e a rivalidade foi e vai, pouco a pouco, se extinguindo, e os dois povos vão apertando os seus laços de fraternal amizade, porque, de fato, eles são irmãos pelos costumes, pela religião, pela educação, pela língua, pelo sangue, pelas virtudes e até pelos defeitos.
Hoje podemos falar sem receio dessa rivalidade, que não existe mais no espírito dos homens esclarecidos, e que apenas amesquinha ainda os corações dos homens menos civilizados das duas nações.
Quando começou a rivalidade entre brasileiros e portugueses? Ninguém poderia marcar-lhe a data. Não erraria, porém, aquele que dissesse que começou no dia em que os portugueses naturais do Brasil começaram a sentir a supremacia que sobre eles exerciam os portugueses naturais de Portugal; isto é, que começou, mais tarde, logo no século XVII, dois séculos antes da independência do Brasil.
Nos anais e nas crônicas das nossas províncias achareis antigas provas dessa rivalidade, provas deixadas em lutas de todo o gênero, e até em vestígios de sangue.
Para não amontoar citações e lembranças históricas limito-me às seguintes, que são irrecusáveis e positivas.
Em 1645, os pernambucanos, pondo-se em campo contra os holandeses, doeram-se por ver à sua frente João Fernandes Vieira, que era europeu, e que só conservou o comando dos independentes pelo prestígio que lhe deu a vitória das Tabocas.
No princípio do século XVIII, a guerra civil dos emboabas, em Minas Gerais, escreveu com letras de sangue a história da inimizade dos paulistas e dos portugueses. Ainda no começo desse mesmo século, a guerra civil chamada dos mascates, em Pernambuco, deu testemunho daquela rivalidade com uma violência terrível.
Em 1707, os naturais de Portugal residentes na cidade do Rio de Janeiro dirigiram ao rei uma representação em que se queixavam dos filhos da terra, que os excluíam nas eleições dos oficiais da Câmara “em tal forma (diz o documento) que, tanto nos pelouros do Senado da Câmara não supõem introduzidas aquelas pessoas do seu empenho, logo se congregam, unem e ajuntam, fazendo ranchos, a fim de embaraçar e perturbar com público escândalo as eleições, etc.” E mais abaixo diz ainda o mesmo documento:
“Não dando outra causa isso mais que serem os suplicantes
filhos deste reino de Portugal, como se Portugal fora a Barbaria e de Portugal
lhes não tivera ido aos suplicados aquilo de que se podem jactar, etc.”
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.