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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— E se o homem que te illudio se apresentasse de novo ?

Juliana fez um movimento de horror.

— Não o amas então mais ?... perguntou Fábio, hesitando.

— Aborreço-o ! murmurou Juliana com uma profunda expressão de verdade.

— Pois bem, disse Fábio ; sabe que Jorge de

Almeida casou-se hoje.

Juliana estremeceu tão violentamente que Fábio teve de suste-la em seus braços.

— Estremeceste, Juliana!...

— Fábio ! disse a moça com voz sentida; o criminoso que conta com o patibulo, ainda assim estremece quando ouve o annuncio da sua sentença de morte.

— Então...

— Nada, Fábio; não concluas cousa alguma.

— Juliana, uma barreira eterna te separa desse homem.

— Estávamos já eternamente separados antes de levantar-se a barreira de que fallas.

— O teu coração está portanto livre e pôde dar-se a um outro homem que te mereça e te faça feliz...

— Um outro homem...

— Sim, Juliana.

— E que outro homem se abaixaria até á posição em que me acho ?...

— Aquelle que te amou sempre: eu, Juliana.

— Fábio!...

— Juliana, eu te offereço a minha mão e o meu nome.

Juliana deixou-se cahir de joelhos, e levantada nos braços de Fábio, tomou-lhe uma das mãos, e cobrio-a de beijos e de lagrimas.

— Aceitas, Juliana?...

A moça ficou por muito tempo sem poder fallar; quando porém os soluços não lhe embargarão mais a voz, respondeu resolutamente:

— Não.

— Oh Juliana! sê minha esposa.

— Não : tu és o mais generoso dos homens : eu tenho porém consciencia,de que sou indigna de ti.

— Juro-te que não te lembrarei nunca uma paixão funesta e louca que tantas lagrimas tem feito correr dos teus bellos olhos ! amo-te como d'antes, e quero que sejas minha : aceita-me, Juliana, aceita-me!...

Juliana commovida, tremula, e vivamente agitada, tomou entre as suas uma das mãos de Fábio, levou-o para um das ângulos do terraço, onde brilhavão menos os raios da lua, e alli, curvando a cabeça, balbuciou com voz lugubre :

— Fábio.., o que Jorge disse no hotel era verdade... Fábio... Jorge de Almeida deshonroume...

E Fábio com voz ainda mais tremula e mais lugubre respondeu :

— Ainda assim...

E encostou-se á parede para não cahir

XXXI.

Juliana levantou a cabeça, fixou seus olhos no rosto de Fábio, e comprehendeu toda a immensidade do sacriicio que o generoso mancebo se offerecia a fazer para salval-a.

As lagrimas, a confusão, a dôr profunda que sentia a infeliz moça, parecerão dissipar-se como por encanto; mas a tranquillidade que ella affectou subitamente, era ainda mais tremenda e ameaçadora.

— Sim, Fábio, disse ella; a noite não póde mostrar-se mais formosa ; a lua brilha, as flores rescendem odorosas.., é uma noite de magia... vem, Fábio, desçamos ao jardim...

E, tomando o braço de Fábio, desceu a escada do terraço, e adiantou-se com o mancebo pelas ruas do jardim.

Fábio estava triste, mas sentia-se ao mesmo tempo dominado pelo irresistivel poder daquella mulher formosissima.

De repente, Juliana parou diante de um massiço onde abundavão as violetas, e, depois de contemplal-as por alguns instantes, disse :

— Tu tinhas razão, Fábio ; as flores têm veneno : as violetas envenenárão-me ! aquelle ramalhete de violetas foi o principio e a causa da minha desgraça.

— Ainda te lembras disso ?...

— Sempre .. mas lembro-o com horror ; o que porém me lembra ainda mais, Fábio, é a lição que me deste sobre o veneno das flores, e que então loucamente não quiz ouvir...

— Esqueçamos o passado, Juliana, disse Fábio, obrigando-a a continuar o passeio.

— Não posso : a sua lembrança é mais forte do que a minha vontade. Sobretudo desde tres dias ouço incessantemente repetidas pelo meu coração as palavras que me disseste na noite da festa dos meus annos.

— Juliana !

— Tu me dizias :— Juliana, os perfumes das flores podem matar...— E eu ousei responder-te:— Deve ser uma morte deliciosa!.. — uma morte de flores !...

— Que queres dizer ?

— Que eu era uma louca, Fábio !

— E hoje que dizes tu, Juliana?...

— Que és um homem generoso... mais do que isso, que és meu anjo, Fábio ! o meu anjo de amor e de consolação; e que eu hei de mostrarme digna de ti.

Os dous jovens tinhão chegado ao caramanchão ; e, Juliana quasi arrastada por Fábio, fora sentar-se ao lado do amante, no banco de relva.

— Sim ! exclamou Fábio ; eu serei o teu protector, o teu amigo, o teu esposo ; e tu has de viver para minha felicidade... Juliana! jura que serás minha esposa !...

— Eu disse que seria digna de ti, Fábio...

— Sê-lo-has sempre, eu o sei ; jura-me, porém, que serás minha esposa !... eu o exijo !

(continua...)

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