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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

Pois eu lhe conto; depois não fique aí vermelhinha como uma pitanga. Escute! 

  Aproximando a boca ao ouvido de Linda segredou-lhe com malícia: 

- Vou à casa, buscar Miguel para que ele venha decidir a nossa aposta, e dizer se eu menti afirmando que ele morre por certa pessoinha muito nossa conhecida.   À proporção que falava a travessa da Berta, abrasava-se a concha nacarada da orelhinha de Linda, enquanto os longos cílios velando os brandos olhos, ensombravam docemente a sua face enrubescida. 

  Quando pronunciava baixinho as últimas palavras, viu Berta uma formosa cabeça magana e brejeira, que se insinuava arteiramente entre seus lábios e o ouvido da companheira, soltando estas palavras com um tom de motejadora confidência: 

- Eu também entro no segredo! 

  Era o Afonso. 

- Ai! exclamou Berta, sentindo nos lábios o roçar do buço macio que pungia a face do mancebo. 

- Que abelhudo você é, mano! acudiu Linda, um tanto contrariada por não ouvir o resto do que tanto lhe interessava. 

- Não disfarce, menina, você mesma é que me disse que Inhá estava me chamando para dar-me um bei... 

- Um beliscão! atalhou Berta cravando-lhe no braço a unha rosada, mas rija como a garra da araponga. 

  E abrindo rapidamente a porta, ganhou a alcova, com o sentido de fechar-se por dentro e evitar assim a desforra que o Afonso não deixaria de tomar e que ela bem suspeitava qual fosse. 

  Mas transtornou-lhe todo o plano o maganão, metendo de pronto o joelho à porta, antes que a chave desse volta. Começou então uma luta, que devia terminar pela derrota de Berta, apesar do petulante arrojo da menina, habituada aos folguedos de rapazes, e da galanteria com que Afonso moderava o seu impulso, a fim de não molestar a sua gentil competidora, e também para não lograr tão fácil a vitória. 

  Mas teve Berta um aliado, com o qual não contara o moço. Linda acudiu à amiga, como a formiguinha que mordeu o calcanhar do caçador para salvar a rola. 

Achegando-se ao irmão sorrateiramente, fez-lhe cócegas. 

  Afonso era árdego; estremeceu, rindo como um perdido, e apartando os cotovelos, para se desvencilhar da irmã, sem abandonar o posto. 

- Assim, Linda! gritava Berta. 

- Espera, sonsinha, que tu me pagas! dizia o Afonso no meio das risadas. 

- Deixe a outra! acudia Linda. 

  Apertado entre dois fogos, voltou-se rapidamente Afonso, para fazer face à irmã, enquanto com as costas empurrava a aba da porta. Vivo e pronto como foi esse movimento não evitou que Berta com extrema agilidade, aproveitando-se da breve intermitência em que a fechadura aderiu ao batente, desse volta à chave. 

  Ficou de todo o ponto azoado o Afonso; e Linda, vendo-lhe a cara desconsolada, soltou uma risada gostosa. 

  Nisso repercutiu um grito; era de terror ou talvez de aflição; e vinha de dentro da alcova. 

- O que foi, Berta? exclamou Afonso. 

- Inhá, Inhá, é você! balbuciava Linda sufocada pelo susto e abalando a porta. 

- Abra depressa! instava o moço cheio de inquietação. 

  Não tiveram resposta estas perguntas ansiadas e instantes. Reinava dentro grande silêncio, apenas cortado por um tinido vibrante, que arrepiava como o áspero trincar da lima no ferro. 

- É graça; ela quer nos assustar! dizia Afonso disfarçando para consolar a irmã, porém angustiado por um terrível pressentimento. 

(continua...)

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