Por José de Alencar (1872)
Havia grande banquete no palacete do Soares, à praia de Botafogo.
Era dia de anos. Guida entrava nos dezenove; o que anunciava para breve um grande acontecimento.
Sabia-se que o pai prometera deixar à filha toda a liberdade para se divertir até dezoito anos com a condição de casarse logo depois. Chegado o dia, Guida sofismou a promessa, declarando que se deviam entender os anos completos: pois até a véspera de fazer dezenove, ela se considerava na casa dos dezoito.
- É assim que nós as moças contamos os anos, disse ela para o pai.
O pai condescendera, e a época do grande acontecimento foi prorrogada até o dia em que fizesse os dezenove anos.
Esta circunstância produzia nos convidados certa emoção se a moça tivesse de fixar naquele dia a sua escolha. Quando a curiosidade excitava tais abalos, imagine-se do que não sentiriam os pretendentes, receando ver de repente se desmoronar o edifício de suas fagueiras esperanças. Corria o mês de abril.
Uma semana antes deixara a família do Soares a Tijuca, e voltara à sua residência habitual de Botafogo, onde com a passagem para o inverno já não havia a temer os grandes calores.
Não se esquecera Guida de convidar Fábio, que tinha continuado a freqüentar a casa; e nessa ocasião pediu-lhe transmitisse o convite a Ricardo, porque este não voltara à Tijuca desde o passeio à “Vista chinesa”.
- Ele está mal conosco? disse a moça a rir.
- Era preciso que fosse um herege, D. Guidinha.
- Pois então peça-lhe que não falte.
- Prometo trazê-lo.
Os salões enchiam-se de convidados; mas eram em geral parentes, íntimos e pessoas de pouca cerimônia, com quem o Soares não se constrangia. A festa aristocrática, à qual concorria todo o alto coturno fluminense, era o baile à noite. Fábio acabava de entrar e aproximou-se para cumprimentar Guida.
- Seu amigo? perguntou-lhe a menina.
- Não veio, murmurou o mancebo.
No rosto gentil da filha do banqueiro pintou-se uma faceira expressão de desdém e enfado.
- Eu não devia apresentar-me aqui sem uma certidão de óbito em devida forma, acudiu Fábio em tom galhofeiro; mas ainda creio que me seria mais fácil trazer o sujeito a modo de convidado de pedra do que em carne e osso.
- Ele terá suas razões, disse a moça com indiferença.
- O que ele tem é uma sem-razão, tornou Fábio no mesmo tom.
No jantar achou-se Fábio colocado à esquerda de D. Guilhermina, como de costume. Havia entre os dois um arruo, que já durava alguns dias.
- Sinto me tivessem reservado este lugar, que outrora era minha ambição, disse o mancebo com sentimento.
- E que hoje lhe aborrece! tornou D. Guilhermina.
- É verdade; pela certeza que tenho de a estar incomodando.
- Engana-se!
- Tem razão; uma criatura de todo indiferente não pode incomodar aqueles que nem se apercebem de sua presença.
- O senhor é muito injusto! murmurou a moça com inflexão queixosa.
- Que direi eu? será justo roubar a alma e a vida de um homem, e não conceder-lhe sequer a mínima consolação?
- Uma entrevista só, à noite, no jardim... Se eu me prestasse a esse capricho, o senhor havia de ser o primeiro a reprovar consigo mesmo essa imprudência e a condenar-me.
- Para que fingir, D. Guilhermina? A causa, eu a conheço! Está defronte de nós!
E o olhar do moço fitou-se no Lima, sócio do conselheiro.
- Então o senhor pensa?...
- Eu não penso. É o que se ouve por toda a parte; é o que diz todo o mundo, tornou Fábio.
- Assim, o senhor também acredita?... balbuciou D. Guilhermina com lágrimas na voz.
O mancebo, comovido, receou que o soluço rompesse do seio opresso da moça.
- D. Guilhermina! exclamou com voz submissa e suplicante. Podem reparar!
- Que mal faz!... Para eles, como para o senhor, não sou uma... desgraçada.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.