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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Bravo, Arnaldo! 

Daniel Ferro eletrizado pela proeza, começou a cantar como um possesso a quadra do Rabicho da Geralda, que celebra um passo: 

 

Tinha adiante um pau caído

Na descida de um riacho;

O cabra saltou por cima, 

O ruço passou por baixo. 

 

Os ecos da cantiga chegaram a Arnaldo, que achou graça na lembrança do Ferro, e também por sua vez repetiu o palavreado do Inácio Gomes, quando corria atrás do Rabicho: 

 

Corra, corra, camarada, 

Puxe bem pela memória;

Quando eu vim de minha terra

Não foi p’ra contar história. 

 

Pelo caso do barbatinão acabara o Dourado de conhecer que vaqueiro tinha êle à cola; e entendendo que o negócio era sério, tratou de pôr-se no seguro. 

Endireitou então para uma ponta da várzea, em que a corrente das águas tinha desde eras remotas cavado um profundo barranco, por onde no tempo das chuvas torrenciais, borbotavam para o rio. Uma vegetação exuberante nutrida pelo humo que a enxurrada alí depositava, cobria êsse tremedal de sarmentos viçosos e lindos festões de flores. 

Estendido sôbre essa cúpula de verdura, um grosso tejú-assú aquecia-se ainda sonolento aos raios do sol matutino, e abria os olhos preguiçosos para ver a causa do alvorôço que ia pela várzea naquela manhã. 

A gente do José Bernardo não julgara necessário guardar êsse ponto, que estava já de si defendido pelo desfiladeiro onde nunca pensaram que o boi se arriscasse por mais afoito que fosse. Ainda não conheciam o Dourado. 

Os olhares que seguiam com atenção essa corrida cheia de peripécias, tiveram um deslumbramento. O boi primeiro, depois o cavalo com o vaqueiro, submergiram-se de repente naquele espêsso balseiro. Retroou um grande baque. Todo êsse turbilhão de homem e animais acabava de despenhar-se do barranco abaixo. 

Houve um instante de ansiedade. Aqueles ânimos acostumados a essas correrias temerárias e curtidos para todos os perigos, sentiram uma vaga inquietação. Estaria Arnaldo naquele instante dilacerado pelos estrepes sôbre que talvez o arremessara a queda desastrada? 

Ouviu-se o grito de terror, que soltara Alina, e a exclamação das senhoras. D. Genoveva dissera: 

— Meu Deus! 

Flor invocara a intercessão daquele que para ela tudo podia na terra. 

— Meu pai! 

O capitão-mór, escutando de longe a voz da filha, voltou-se para dirigir-lhe um gesto tranquilizador. 

Do lugar onde estava com os outros companheiros, viram-se além, na estreita nesga de campo que ficava depois do despenhadeiro, passar umas sombras que sumiram-se na mata. E agora ouvia-se um estrépito bem conhecido dos sertanejos; era como uma descarga de fuzilaria que reboava na floresta. O estalar dos ramos despedaçados pela corrida veloz de um animal possante, como o boi, o cavalo, a anta e o veado, produz essa ilusão, que aumenta com a repercussão profunda e sonora da espessura. 

O capitão-mór reconheceu que o Dourado corria na mata; e a velocidade de sua fuga indicava muito claramente que ia perseguido. Portanto nada acontecera ao intrépido vaqueiro; pois êle acossava o boi com o mesmo ardor, e já lhe estava no encalço, como se calculava pelo breve espaço que mediava entre uma e outra crepitação. 

Efetivamente Arnaldo rompia a mata naquele instante como um raio, de que dera o nome ao seu cavalo; e para usar da frase sertaneja levava o Dourado de tropelão. Ganhando sempre avanço, à medida que estendia-se a carreira e a-pesar-de todas as manhas do boi, já achava-se apenas na distância de uns dez passos, o que todavia, se nada vale no campo one o vaqueiro pode manejar o laço, é muito no mato fechado. 

Essa corrida cega pelo mato fechado é das façanhas do sertanejo a mais admirável. Nem a destreza dos árabes e dos citas, os mais famosos cavaleiros do velho mundo; nem a ligeireza dos guaicurús e dos gaúchos, seus discípulos, são para comparar-se com a prodigiosa agilidade do vaqueiro cearense. 

Aqueles manejam os seus corcéis no descampado das estepes, dos pampas e das savanas; nenhum estôrvo surge-lhes avante para tolher-lhes o passo; êles desfraldam a corrida pelo espaço livre, como o alcião que transpõe os mares. 

O vaqueiro cearense, porém, corre pelas brenhas sombrias, que formam um inextricével labirinto de troncos e ramos tecidos por mil atilhos de cipós, mais fortes do que uma corda de cânhamo, e crivados de espinhos. Êle não vê o solo que tem debaixo dos pés, e que a todo o momento pode afundar-se em um tremedal ou erriçar-se em um abrôlho. 

(continua...)

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