Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Desrespeitei um sentimento sagrado... quis cultivar na minha alma uma flor estranha ao pé de outra flor, que lá está plantada pela mão do Senhor Deus. Sabeis o que aconteceu?...
– O quê?
– A flor estranha está murcha... está morta, disse com voz trêmula e dolorosa o mancebo; mas deixou para sempre na minha alma o germe de um tormento horrível... desesperado!
Os olhos e o rosto de Cândido acendiam-se de novo: a velha começou a recear que sobreviesse algum acidente mais grave, e ia falar, quando o moço prosseguiu com voz cada vez mais repassada de dor:
– Plantei em um vaso sagrado uma flor humana, quis equiparar um sentimento, que me veio do céu, com outro que achei na terra. O resultado é este; o vaso foi profanado... a flor humana feneceu... um remorso é o que dela me resta.
– Cândido!
– Quereis dizer que não me tendes compreendido?... eu vos explico tudo; metade da culpa pertence-vos também; mas mal não vos quero por isso. Ouvi-me.
A velha não achou uma só palavra para dizer a Cândido, que continuou a falar.
– O amor dos pais vem do céu: é um sentimento tão grande, tão nobre, tão divino, que apesar de ser natural a todos os homens; de às vezes achar-se um bom filho em um mau cidadão; o Senhor Deus desceu do céu, misturou-se com os homens e quis que esse sentimento fosse dele também, fazendo-se filho de uma mulher. O amor dos pais nos anima, nos consola, nos exalta, nos aproxima de Deus. Oh! eu nunca vi meus pais, e os amei com toda a força de minha alma. Quando soube que no mundo só me restava mãe, concentrei todos os raios da minha faculdade de amar nessa mulher, que eu tenho criado na minha imaginação tão bela como um anjo. Oh! minha mãe!... eu não tinha pensamento que não fosse dela; todos os meus desejos, todos os meus sonhos de venturas relacionavam-se com ela: oh!... eu pensava ser, mas não era desgraçado! porque no meio de meus dissabores, de minhas tristes vigílias, de meus sofrimentos e de minhas privações, a imagem de minha mãe me aparecia bela... amante... carinhosa; e, contemplando essa imagem, eu esquecia todos os meus infortúnios. Eu era pobre no mundo, mas com o meu coração rico deste amor, eu gozei muitas vezes delícias indizíveis; porque, quando eu me engolfava em belas fantasias a respeito de minha mãe, quando me sentia redobrar de amor por ela, oh!... parecia-me ver lá de cima, do céu, o Senhor Deus sorrindo para mim, mandar-me um anjo murmurar-me aos ouvidos – abençoado!...
– Abençoado!... repetiu a velha enxugando com a face dorsal da mão duas grossas lágrimas que dos olhos lhe caíram.
– Não é verdade que eu deveria contentar-me com esta suprema felicidade que gozava? felicidade que não há ouro que a compre!...
– Oh! sim! sim!...
– Pois o coração do homem é uma fonte de insaciável ambição; o homem é tão ambicioso de riquezas, de honras, e de empregos, como de afeições. Eu perdiame, porque sou como todos os outros.
– Como? que queres tu dizer?...
Cândido passou a mão pela fronte e prosseguiu:
– Da fresta daquela janela vi uma mulher de quem eu não podia ser filho, e que eu amei tanto quanto amava e amo a imagem de minha mãe!...
– Que importa?...
– Que importa?! pois não é um sacrilégio igualar o sentimento da terra com um sentimento que foi digno de Deus?! oh!... pois não é uma ingratidão inqualificável amar a uma mulher a quem nada devemos, que muitas vezes nos não paga o nosso amor, que outras vezes é mesmo indigna de ser amada, e amá-la tanto quanto amamos aquela que padeceu por nós horríveis transes, aquela cujo sangue é o nosso sangue?! é sacrilégio, senhora, e é ingratidão. Eu fui sacrílego e ingrato!
– Cândido!...
– Esqueci tudo por uma criança de dezesseis anos, que ao romper de uma aurora descobri por entre as flores daquele jardim. O momento que bastou para vê-la começou a pesar em meu coração tanto quanto até então tinha pesado minha mãe. Esqueci minha pobreza, não me lembrei que aí por esse mundo um pobre é um ente à parte, que não deve comer à mesa com os ricos, que não deve amar a quem tem mais do que ele... esqueci tudo... de minha mãe, comecei a lembrar-me menos; no altar da minha alma coloquei duas santas... e quando orava, já não orava só por minha mãe!... fiz mais: deixei o silêncio de meu quarto, fui tomar parte nas festas de gente que não era pobre como eu; riram-se talvez de mim, mil vezes em cada noite!... eu diverti-os, cantei, para que me tolerassem ali... curvei-me... abaixei-me...
e nem assim me toleraram.
– Cândido!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.