Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Qual velho! disse um dos espectadores, ele não era velho.
— Oh! acudiu Otávio; eu o observei de bem perto: tinha os cabelos completamente brancos.
— Ei-los ali!... era uma cabeleira!...
E todos viram sobre a praia uma cabeleira branca coberta de sangue.
— E, portanto, pensou Raquel, era ainda ele!...
XX
Honorina
Era meia-noite.
A tempestade tinha passado: o tempo se havia tornado chão, a atmosfera fresca e leve.
Honorina dormia.
O médico chamado para prestar seus cuidados à jovem senhora, conseguira facilmente fazer desaparecer a síncope, que a salvara no momento da submersão, e que ainda durava algum tempo depois; segundo ele, Honorina não corre perigo algum.
A câmara de Honorina está fracamente iluminada; três pessoas velam junto de seu leito. Ema reza piedosamente defronte da querida neta; Raquel, à cabeceira de sua amiga, tem uma das mãos dela entre as suas; Lúcia suspira sentada aos pés da filha de seu leite; Raquel e Lúcia mostram-se mais agitadas e aflitas do que já pedia o caso.
E Honorina dorme: vestida com um ligeiro roupão branco, com seus belos e longos cabelos, ainda molhados, espargidos pela almofada, com seu rosto meigo e formoso, então ainda mais pálido, com suas pálpebras cerradas, ocultando seus grandes e brilhantes olhos, estava encantadora e poética; e o sono da virgem semelhava o dormir de um anjo; porque suavíssimo era ele, e quase imperceptível a respiração que pelos lábios da moça saía. Tão bela, tão pálida, tão imóvel, alguém poderia crê-la estátua de puro mármore, exposta como triunfo de mestre.
Por algum tempo reinou na câmara profundo silêncio, apenas de momento a momento interrompido pelo baque das contas do rosário, em que a religiosa velha marcava suas orações; e às vezes levantava-se alguma das três pessoas, que aí velavam, e ia pé por pé até junto da moça para, chegando o rosto perto dos lábios dela, receber a impressão de seu respirar de pomba.
Depois de algum tempo ainda de não quebrado silêncio, Lúcia, cujo desassossego não diminuía, apesar do lisonjeiro estado de Honorina, murmurou baixinho:
— Mas ele... ele... o salvador de nossa querida menina!...
— Hugo foi dar todas as providências, disse Ema no mesmo tom, e é de crer que o possamos abraçar e recompensar...
— Recompensar?! tornou Lúcia, o homem, que assim se expôs à morte, tem por força um coração muito elevado para que chegue até a ele a idéia de uma recompensa.
— E isso não nos dispensa do dever da gratidão.
— De uma outra gratidão, senhora.
— Tu estás de mau humor, mãe Lúcia.
— Perdão, senhora; mas aquele homem... ferir-se...
— Aquele homem é um herói da têmpera de nossos avós... nos dias de hoje não se encontram dois homens como ele.
— Outra vez perdão, senhora; mas eu sei de um que seria capaz de praticar a mesma ação que ele praticou.
— Capaz de, em uma noite tempestuosa, atirar-se ao mar borrascoso para salvar uma moça, que não é sua irmã, nem sua amiga?... perguntou Ema sacudindo a cabeça em sinal de dúvida.
— Sim, senhora, respondeu Lúcia com a firmeza da convicção; capaz talvez de mais ainda.
— E quem é esse?...
— Eu tenho medo de desgostar a senhora.
— Não! dize, dize.
— Esse, disse Lúcia enxugando duas grossas lágrimas; esse não está conosco... está bem longe daqui... é o homem que bebeu o leite de meus peitos... é seu neto...
— Mãe Lúcia, não me fales dele!
— Aquele, senhora, que foi capaz de arrojar-se às chamas para salvar uma moça que não era sua irmã, nem sua amiga, atirava-se também pelo mesmo motivo ao mar, embora o visse tempestuoso.
— Há uma diferença, mãe Lúcia; o homem, que se lançou ao mar para salvar Honorina, fê-lo, porque era um bravo; e Lauro arrojou-se às chamas porque não passa de um louco.
— Está bem... basta, senhora! disse Lúcia chorando amargamente.
Sem tomar parte no diálogo, que entretinham as duas, sem talvez muita atenção prestarlhe, Raquel guardava triste silêncio. Sossegada a respeito do estado de Honorina, ela parecia ter em seu espírito alguma outra consideração que a fazia sofrer: na vida dessa moça, que até então tinha corrido toda em fios cor-de-rosa, aparecia, enfim, uma nuvem de abafado padecer; em sua alma, que brilhara sempre com a luz viva do prazer, desenhava-se já a sombra de um desgosto. Raquel, tendo os olhos embebidos no rosto da sua amiga da infância, às vezes deixava pendurarse em seus longos cílios uma grossa lágrima escapada insensivelmente de seus belos olhos, como gota de orvalho caída do céu; qual será a causa dessa lágrima?... será porventura exprimida de dentro do coração?... será seu destino ir nas asas de algum terno pensamento a outrem, que ali não esteja?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.