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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Quase todos os seus artigos eram mais ou menos pagos, pelo diretor e pelos interessados; assim também procedia Veiga Filho. A sua literatura era a duas amarras. Escreveu, certa ocasião, um conto, de coluna e meia, passado em Teresópolis e gabando com insistência as comodidades de um hotel. O hoteleiro, no fim do mês, ao receber a conta dos anúncios, correu furioso ao escritório:

— Mas, já paguei!

— Como? fez admirado o gerente.

— Sim. Dei ao Senhor Veiga Filho duzentos mil-réis pelo conto.

— Mas quem lhe falou no conto, Senhor Lebrindo? Isso é lá entre os senhores... E quer

saber de uma coisa? Nós já o pagamos também.

Ninguém se surpreendeu no jornal. Todos andavam preocupados com a obtenção de posições e mesmo que não andassem, aquilo era quase admitido. Oliveira andava indignado com os colegas pelo sôfrego assalto aos lugares públicos, de que davam mostras.

— É isto, dizia ele; vocês não prezam a imprensa, fazem dela achego, gancho; não a dignificam, não a honram. Querem empregos públicos, como se um reles burocrata valesse mais do que um jornalista...

— Mas não é isso, objetava Leiva. É mais seguro...

— Qual seguro! Então você pensa que não se é também demitido... É preciso engrossar, bajular, fazer manifestações... Eu não quero. Da Imprensa, para a cova, e não acho profissão mais brilhante do que a nossa!

Ele nunca tinha engrossado e era um grande jornalista. Losque também não quis emprego; a sua pretensão era ser deputado. Os seus títulos consistiam em ser redator anônimo de um grande jornal. Nunca se fizera notar por coisa alguma, não tinha a menor influência, não se distinguia como portador de nenhuma idéia útil e fecunda; mas queria ser deputado, indicado por um presidente de Estado, como convinha a um dos auxiliares do doutor Ricardo Loberant, o moralizador da República.

No meio daquele fervilhar de ambições pequeninas, de intrigas, de hipocrisia, de ignorância e filáucia, todas as coisas majestosas, todas as grandes coisas que eu amara, vinham ficando diminuídas e desmoralizadas. Além do mecanismo jornalístico que tão de perto eu via funcionar, a política, as letras, as artes, o saber — tudo o que tinha suposto até aí grande e elevado, ficava apoucado e achincalhado.

Via Floc fazer reputações literárias, e ele mesmo uma reputação; via Lospue, de braço dado com o medíocre Ricardo Loberant, erguer à Câmara e ao Senado quem bem queria; via Aires d'Ávila, com uns períodos de fazer sono e uma erudição de vitrine influir nas decisões do Parlamento; via médicos milagreiros e tidos como sábios pedirem elogios às suas pantafaçudas obras, a redatores ignorantes; e também via Dona Inês, a esposa do diretor, uma respeitável senhora, certamente, fazer-se juiz dos contos e das poesias dos concursos, com a sua rara competência de aluna laureada das irmãs de caridade.

À vista disso, à vista dessa incompetência geral para julgar, da ligeireza e dos extraordinários resultados que obtinham com tão fracos meios, impondo os seus protegidos, os seus favoritos, fiquei tendo um imenso desprezo, um grande nojo, por tudo quanto tocava às letras, à política e à ciência, acreditando que todas as nossas admirações e respeitos não são mais que sugestões, embustes e ilusões, fabricados por meia dúzia de incompetentes que se apóiam e se impuseram à credulidade pública e à insondável burrice da natureza humana.

Mas, se o meu desprezo e o meu aborrecimento por tudo isso se não fizeram totais, foi porque por vezes senti neles, naqueles redatores e repórteres que tinham o cofre das graças, grandes dúvidas, grandes desesperos e fortes vacilações de consciência sobre o seu próprio valor.

Houve um caso que, por trágico, me ficou eternamente gravado e foi como a demonstração de que ainda havia no fundo de alguns deles uma crença no Sério, no Verdadeiro, na Perfeição.

Voltava eu nessa tarde da casa de Veiga Filho, onde tinha ido levar umas provas. Voltava admirado de que os seus amigos, toda vez que a ele se referiam, lembrassem a grande miséria em que vivia. Não o tinha visto assim. Morava numa casa apalaçada, numa rua do bairro das Laranjeiras, com altos e baixos, dois andares. Esperei as provas na sala de visitas, transformada em gabinete de trabalho, mobiliada com relativa opulência. Havia bronzes, divãs, mesas com incrustações de laca e charão, vasos de porcelana, estantes com guarnições de bronze... Onde estava a miséria? O Artur sempre se referia a ela e o Bilac, no seu “Registro”, lastimava-a como indicando o atraso da nossa civilização.

(continua...)

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