Por Lima Barreto (1911)
Se Lucrécio se preocupava com a notícia, Macieira muito naturalmente havia de avaliá-la por todos os aspectos. O jornal que a estampara era um dos mais lidos na cidade, tinha grande prestígio nos meios políticos; e, certamente, se não traduzia um desejo de Contreiras, manifestava o começo do plano dos seus inimigos para tomarem-lhe o lugar. Na redação do jornal estava o José Pedro que nascera no Estado; mas nunca Macieira o viu com desejos de figurar na política e muito menos que fosse contra ele. Ao contrário: pedia-lhe informações, dava-lhe notícias tendenciosas e como patrício inteligente, freqüentava-lhe a casa como a de Contreiras que também nunca deixara perceber que queria ser qualquer coisa no Estado. Toda a gente, imaginava ele, quer ser político, e os meninos dos jornais não pensavam senão em sê-lo. Vêem os seus patrões deputados, senadores, escrevem também e se propõem também a sê-lo. Demais, a candidatura de Bentes foi imposta da mesma forma que a de Contreiras. Lançara-a um qualquer num jornaleco A Cimitarra, de uma cidade longínqua, começou a falar-se nela, tomou vulto e eles tiveram que aceitá-la. Aproveitou-a como salvação, agora, porém, estava vendo que a arma se voltava contra ele.
Arlete ainda não tinha saído do quarto e Macieira já se havia embrenhado mil vezes nessas considerações. Arlete que, tantas vezes, interviera para salvá-lo de dificuldades, agora lhe parecia impotente. Se estivesse em casa, seria pior... Quando acontecia surgir-lhe essas dificuldades matutinas, em casa de sua mulher, ele as achava mais difíceis. Dormir fora era para ele dormir na sua casa legal... Pensou em procurar Bentes, em pedir-lhe francas explicações do caso. Quem podia, porém, fiar-se em Bentes? Prometia e... Seria melhor rodeá-lo, correr aos amigos...
— Arlete!
— Que é?
— Já vou.
— Já, “mon cheri”? Que há?
— Querem me derrubar.
— Oh! Que coisa! “Mais, mon Dieu!”... É coisa assentada já, “cheri”? Que é?
— Não sei. Está aqui nos jornais...
— Qual! O país de vocês não presta para nada... É mesmo porcaria... Então você que é tão bom, vai sair! Será o general?
— Não sei, Arlete.
— É ele... “Sale type”!
Macieira vestiu-se apressadamente e encaminhou-se para a casa de Neves Cogominho. A situação delicada da política exigia movimentos rápidos, a ação pronta e o chefe da polícia de Sepotuba resolvera deixar Petrópolis. Habitava agora a casa de Humaitá, que ficava próximo da de Bentes, podendo em minutos alcançar este, aparar o golpe que lhe quisessem desferir. Neves Cogominho não aceitara a candidatura de Bentes com muita satisfação. O processo pelo qual o general se impusera, tirava a força e o valor políticos dele, Cogominho. Compreendia perfeitamente que ele e os seus colegas não tinham feito mais que ratificar uma escolha de quartéis e imposta sob disfarçada ameaça de uma revolução. Bentes estaria sempre disposto a apelar para a violência, para a coação da força, e desprezar portanto os conchavos de votos, as compensações políticas. Sentia como certo que o bastão de chefe ia escapar-lhe das mãos; sentia também que lhe escaparia da mesma forma se se tivesse recusado a homologar a imposição. Aderindo, simulando admirador de Bentes, ao menos podia salvar alguma coisa, se não de toda a sua autoridade política, ao menos amparar o genro que começava agora a carreira.
Até aqui Salustiano ainda não pudera avançar um passo; ao contrário, aproximava-se cada vez mais dele. Acreditava que isso fosse devido a conselhos de Bentes, pois que o general sempre dizia que a sua missão era harmonizar a família republicana. Certamente, Salustiano queria ser deputado. Neves Cogominho estava disposto a fazê-lo; e assim golpeava a efetiva oposição do seu Estado que festejava Salustiano para feri-lo. Na Câmara, Salustiano seria como os outros; e, não podendo dispor de empregos e concessões não organizaria um partido forte que pudesse abalar o antigo prestígio do sobrinho do venerando Frutuoso.
Lendo, porém, aquele “suelto”, Neves Cogominho verificou que as suas considerações podiam ser burladas. O processo estava claramente indicado. Um repórter levantava o nome de um coronel, parente ou não de Bentes, para presidente, e, naturalmente, o general, por camaradagem e espírito de classe, dava a mão forte a esse coronel. Chegado este ao poder não iria com toda certeza receber o santo e a senha dos chefes, mas agir a seu modo, com a arrogância de militar e inspirar-se na crença íntima de que era infalível por ser militar.
Tendo tomado no devido valor a meditação, Neves Cogominho resolvera confabular com o seu amigo Macieira. Esperava encontrá-lo no Senado; Macieira, porém, veio procurá-lo em casa.
— Eu já esperava você — disse Neves. — A notícia do O Intransigente devia ter posto a pulga na orelha de você.
— Não sei bem o que hei de pensar dela. Neves, você sabe perfeitamente com que antecedência adotei a candidatura de Bentes... Muito antes de vocês; e pode-se mesmo dizer que, nos meios políticos, fui dos primeiros a tomá-la a sério. O Bastos...
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.