Por Aluísio Azevedo (1895)
- E, com efeito, são muito bons.
- Qual! Escrevi-os de afogadilho! Ah! mas se eu já a conhecesse, juro-te que sairiam inspirados!
- Pois reserva a inspiração para outra vez.
Não continuaram a conversa, porque Mme. de Nangis veio ter com Afonso e arrebatou-o, dizendo ao outro:
- Tenha paciência, roubo seu amigo por um instante!
Teobaldo ia também deixar a janela, quando a cortina desta se agitou e apareceu Branca.
- Ah! fez ele, V. Exa. estava aí?
- Sim, o que foi muito bom, porque posso lhe agradecer os versos que o senhor me fez.
- Pois ouviu?
- Ouvi, mas foi sem querer... Que mal ha nisso...
- Seu primo é que não ficará satisfeito.
- Se souber, mas que necessidade tem ele de saber?..
- Quer que eu não lhe diga nada?
- Decerto, e nem só isso, corno desejo que meu primo não fique na primeira poesia e me ofereça muitas outras. Vou daqui direitinha dizer isso mesmo a ele próprio.
E, como para agradecer antecipadamente os versos de Teobaldo, estendeu-lhe a mão, que o moço apertou entre as suas, um tanto comovido.
Horas depois, os dois rapazes, já instalados nos seus sobretudos, metiam-se no carro e abandonavam a festa do comendador.
Pela viagem Teobaldo, a despeito do bom humor do companheiro, quase que não deu palavra; e, ao se pararem-se, Afonso notou que o achava triste.
- Não é nada, respondeu o outro. - Adeus. Até mais ver!
E deixou-se cair para o fundo do cupê, respirando com alívio e murmurando entredentes: – Adorável criança!
XVIII
Enquanto Teobaldo dançava, ouvia música e conversava em casa do comendador Rodrigues de Aguiar, o pobre Coruja via-se em papos de aranha com os nervos da Ernestina, cuja crise não fora tão passageira como afiançara aquele.
De mais a mais, o Caetano havia saído logo em seguida ao amo e nessa noite recolherase mais tarde que de costume; teve André por conseguinte de servir de enfermeiro à rapariga, sem licença de abandoná-la um só instante, porque as convulsões histéricas e os espasmos se repetiam nela quase que sem intermitência.
Foi uma noite de verdadeira luta para ambos; o rapaz, apesar da riqueza dos seus músculos, nem sempre lhe podia conter os ímpetos nervosos. A infeliz escabujava como um possesso; atirava-se fora da cama, rilhando os dentes, trincando os beiços e a língua, esfrangalhando as roupas, em um estrebuchamento que lançava por terra todos os objetos ao seu alcance. No fim de algumas horas o Corja sentia o corpo mais moído do que se o tivessem maçado com uma boa carga de pau.
Além de que, a sua nenhuma convivência com mulheres e o seu natural acanhamento, mais penosa e critica tornavam para ele aquela situação. Ernestina cingia-se-lhe ao corpo, peito a peito, enterrando-lhe as unhas na cerviz, mordendo-lhe os cabelos, refolgando-lhe com ânsia sobre o rosto, como em um supremo desespero de amor. E André, tonto e ofegante, sentia vertigens quando seus olhos topavam as trêmulas e agitadas carnes da histérica, completamente desvestidas nas alucinações do espasmo. Às quatro horas da madrugada, quando Teobaldo chegou do baile, ele ainda estava de pé e a enferma parecia ter afinal sossegado e adormecido.
- Que! exclamou aquele. Pois ainda trabalhas?
- Schit! Qual trabalho... respondeu Coruja, pedindo silencio com um gesto. Passei a noite às voltas com a Ernestina... Ah! não imaginas... ataques sobre ataques!... Pobre rapariga! Não faças bulha... Creio que ela agora está dormindo...
- Impressionou-se naturalmente com o que eu lhe disse à tarde... Ora! não fosse importuna!
- Coitada!
- Bem, disse Teobaldo, mas recolhe-te ao quarto e trata de descansar; eu fico aqui. Vai.
- Mas não te deitas?
- Tenho ali aquele sofá; não te incomodes comigo. Vai para a cama, que deves estar caindo de cansaço. Adeus.
O Coruja notou que o amigo trazia qualquer preocupação.
- Sentes alguma coisa? perguntou-lhe.
- Ao contrário: há muito tempo não me acho tão bem disposto.
- Então boa noite.
- Até amanhã.
Coruja recolheu-se ao quarto e o outro pôs-se a passear na sala, enquanto se despia; depois chegou à porta da alcova, encarou com um gesto de tédio o to prostrado de Ernestina e voltou logo o rosto, como se tivesse medo de acordá-la com o seu olhar.
Todo ele era só uma idéia: - a filha do comendador. Branca não lhe saía da imaginação; tinha ainda defronte dos olhos aquele sorriso que ela lhe deu à janela; sentia ainda entre as suas a sua tremula mãozinha e nos ouvidos a música das últimas palavras que lhe ouviu.
- Adorável! adorável! repetia ele.
E foi para a mesa em mangas de camisa e começou a escrever versos sentimentais.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.