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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

Mas o diabo do velho era um safado; dava-lhe muita coisa, dinheiro até, trazia-a sempre limpa e de barriga cheia, sim senhor! mas queria que ela se prestasse a tudo! Brigaram. E, como o vendeiro da esquina estava sempre a chamá-la para casa, um belo dia arribou, levando o que apanhara ao velho.

— Estás então agora com o da venda?

Não! O tratante, a pretexto de que desconfiava dela com o Bento marceneiro, pô-la na rua, chamando a si o que a pobre de Cristo trouxera da casa do outro e deixando-a só com a roupa do corpo e ainda por cima doente por causa de um aborto que tivera logo que se metera com semelhante peste. O Bento tomara-a então à sua conta, e ela, graças a Deus, por enquanto não tinha razões de queixa.

O Pataca olhou em torno de si com o ar de quem procura alguém, e Florinda, supondo que se tratava do seu homem, acrescentou:

— Não está cá, está lá dentro. Ele, quando joga, não gosta que eu fique perto; diz que encabula.

— E tua mãe?

— Coitada! foi pro hospício...

E passou logo a falar a respeito da velha Marciana; o Pataca, porém, já lhe não prestava atenção, porque nesse momento acabava de abrir-se a cortina vermelha, e Firmo surgia muito ébrio, a dar bordos, contando, sem conseguir, uma massagada de dinheiro, em notas pequenas, que ele afinal entrouxou num bolo e recolheu na algibeira das calças.

— Ó Porfiro! não vens? gritou lá para dentro, arrastando a voz.

E, depois de esperar inutilmente pela resposta, fez alguns passos na sala.

O Pataca deu à Florinda um “até logo” rápido e, fingindo-se de novo muito bêbedo, encaminhou-se na direção em que vinha o mulato. Esbarraram-se.

— Oh! Oh! exclamou o Pataca. Desculpe!

Firmo levantou a cabeça e encarou-o com arrogância; mas desfranziu o rosto logo que o reconheceu.

— Ah! és tu, seu galego? Como vai isso? A ladroeira corre?

— Ladroeira tinha a avó na cuia! Anda a tomar alguma coisa. Queres?

— Que há de ser?

— Cerveja. Vai? — Vá lá.

Chegaram-se para o balcão.

— Uma Guarda-Velha, ó pequeno! gritou o Pataca.

Firmo puxou logo dinheiro para pagar.

— Deixa! disse o outro. A lembrança foi minha!

Mas, como Firmo insistisse, consentiu-lhe que fizesse a despesa.

E os níqueis do troco rolaram no chão, fugindo por entre os dedos do mulato, que os tinha duros na tensão muscular da sua embriaguez.

— Que horas são? perguntou Pataca, olhando quase de olhos fechados o relógio da parede. Oito e meia. Vamos a outra garrafa, mas agora pago eu!

Beberam de novo, e o coadjutor de Jerônimo observou depois:

— Você hoje ferrou-a deveras! Estás que te não podes lamber!

— Desgostos... resmungou o capoeira, sem conseguir lançar da boca a saliva que se lhe grudava à língua.

— Limpa o queixo que estás cuspido. Desgostos de quê? Negócios de mulher, aposto!

— A Rita não me apareceu hoje, sabes? Não foi e eu bem calculo por quê!

— Por quê?

— Porque a peste do Jerônimo voltou hoje à estalagem!

— Ahn! não sabia!... A Rita está então com ele?...

— Não está, nem nunca há de estar, que eu daqui mesmo vou à procura daquele galego ordinário e ferro-lhe a sardinha no pandulho! — Vieste armado?

Firmo sacou da camisa uma navalha.

— Esconde! não deves mostrar isso aqui! Aquela gente ali da outra mesa já não nos tira os olhos de cima!

— Estou-me ninando pra eles! E que não olhem muito, que lhes dou uma de amostra!

— Entrou um urbano! Passa-me a navalha!

O capadócio fitou o companheiro, estranhando o pedido.

— É que, explicou aquele, se te prenderem não te encontram ferro...

— Prender a quem? a mim? Ora, vai-te catar!

— E ela é boa? Deixa ver!

— Isto não é coisa que se deixe ver!

— Bem sabes que não me entendo com armas de barbeiro!

— Não sei! Esta é que não me sai das unhas, nem para meu pai, que a pedisse!

— E porque não tens confiança em mim!

— Confio nos meus dentes, e esses mesmo me mordem a língua!

— Sabes quem vi ainda há pouco? Não és capaz de adivinhar!...

— Quem?

— A Rita. — Onde?

— Ali na Praia da Saudade.

— Com quem?

— Com um tipo que não conheço...

Firmo levantou-se de improviso e cambaleou para o lado da saída.

— Espera! rosnou o outro, detendo-o. Se queres vou contigo; mas é preciso ir com jeito, porque, se ela nos bispa, foge!

O mulato não fez caso desta observação e saiu a esbarrar-se por todas as mesas. Pataca alcançou-o já na rua e passou-lhe o braço na cintura, amigavelmente.

— Vamos devagar... disse; se não o pássaro se arisca!

(continua...)

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