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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Lera a "Graziela" de Lamartine, e o sentimento de tristeza que a arrebatou com semelhante leitura, bem longe de possuir a ingênua melancolia da procitana apaixonada, levou­a a edificar um dos castelos do seu mundo fantástico nos rochedos de Ischia. E aí mesmo, nesse castelo suspiroso e poético, o encapotado Cativo de Santa Helena penetrou despoticamente para tomar o melhor lugar.

Um dia, depois de reler aquela obra, Laura encostou­se à janela, olhando vagamente para as águas.

Um italiano, que para à rua com o seu realejo, principia a moer a "Marselhesa". A tarde precipitava­se no crepúsculo, e enchia a natureza de tons melancólicos e doloridos.

Laura conhecia algumas passagens da revolução francesa, narradas enfaticamente pelo autor de "Graziela", na "História dos Girondinhos". E aquela pobre música, arrancada de um realejo por um mendigo, foi o bastante para arrastá­la ao seu mundo fantástico. E então, sob o poderoso domínio do sentimentalismo retórico da Marselhesa, a infeliz caiu vítima de uma crise muito mais forte que as anteriores.

As lágrimas saltaram­lhe dos olhos e o coração lhe palpitou com veemência.

Teve uma terrível noite de febre e de ansiedade. O pai e a avó viram­se aflitos. O médico cobria­os de perguntas, e olhava atentamente para os olhos expressivos de Laura.

— Não é nada... dizia ele depois, em particular ao cocheiro.

E segredou­lhe alguma cousa ao ouvido.

— Não! não! respondeu Jorge. Isso foi logo que ela entrou nos quatorze anos... Hoje está com dezesseis.

— Ela tem algum namoro?...

— Qual!... Teve um, mas foi tolice de criança; passou!

— Entretanto, aquilo pode converter­se em seria... É preciso casá­la.

Desde esse dia, Jorge vivia preocupado com a idéia de casar a. filha. Mas não achava jeito de tocar­lhe no assunto.

Além disso, coitada! pensava o bom homem; a quem diabo iria ela escolher para marido?... A pobre rapariga só conhecia gente, que lhe podia encher as medidas!

Laura estava, com efeito, na crise fisiológica em que as aves cantam, e ter­se­ia dedicado exclusivamente a preparar o seu ninho, se, como dizia o pai no seu rude bom senso, houvesse por ali algum rapaz que lhe enchesse as medidas.

O vela de Sebo, apesar de toda a sua semelhança com Bonaparte, fora posto à margem, desde que ultimamente dera para emborrachar­se aos domingos. Laura, pois, não tinha a quem dedicar os gorjeios da sua puberdade. Seu canto de amor ficou sem resposta e transformou­se em gemidos, que foram cair aos pés de Ambrosina, como um tesouro sem dono.

Eis em que condições olhava, embevecida, a filha do cocheiro, para aquele formoso ser que permanecia prostrado sobre a cama.

No quarto reinava o silêncio triste das noites de chuva, só se ouvia a conversa monótona de Jorge, que na sala próxima tomava café com Alfredo, servidos pela velha Benedita.

Fez­se mais tarde, e Jorge, depois de cuidado o hóspede, disse aos seus que se recolhessem.

Teve­se de armar uma cama para Alfredo, na sala de visitas; Laura dormia ao lado de Ambrosina, no mesmo leito.

Daí a meia hora, estavam todos acomodados. Laura fechou as portas do quarto, soltou os cabelos e despiu­se. A amante de Gabriel continuava a dormir. A menina assentou­se perto dela, quedou­se a contemplá­la com um olhar profundamente meigo.

A espaços, leves suspiros entreabriam os lábios da adormecida.

Laura vergou­se sobre ela e deu­lhe um beijo.

XXIV

O IMPLACÁVEL ALFINETE

Foi uma noite de insônia e divagações para a filha do cocheiro.

Logo que ela se deitou ao lado de Ambrosina, sentiu um estremecimento nervoso encrespar­lhe a dourada penugem do corpo. Encolheu­se toda, como uma rola acariciada.

A luz frouxa de uma lamparina de azeite derramava­se no quarto, deixando perceber confusamente os objetos.

Laura, apoiada sobre o cotovelo esquerdo, amparando a cabeça com a mão, tinha, no gracioso abandono íntimo do leito, um profundo ar de enlevo e de melancolia. O colo, meio descoberto, aparecia­lhe através das modestas rendas da camisa, em toda a deliciosa frescura da sua virgindade. Os cabelos caíam­lhe em torno do pescoço, fazendo­lhe destacar a palidez do rosto. A boca, semiaberta, deixava passar um sorriso amargo e ansioso. Viam­se­lhe os dentes brancos, mais brancos na meia sombra que lhe banhava as feições, e os olhos negros, mais negros no luzir daquele anseio.

Ambrosina, a princípio sossegada, começava a agitar­se, e a dizer palavras destacadas e sons inarticulados. Era o delírio da febre.

Laura tomou­lhe nas mãos a cabeça e pousou­a em seu colo. A enferma abriu os olhos e encarou­a surpreendida, mas o seu olhar era doce como o beijo de amor.

Laura sorriu, assentou­se melhor na cama e puxou de todo Ambrosina para o regaço. Esta, mole de fraqueza, deixou­se­lhe cair sobre as pernas, cingiu­lhe com um dos braços a cintura. Tinha os olhos fechados, a respiração convulsa; a outra lhe acarinhava os cabelos e lhe afagava o corpo, como enfermeira amorosa.

(continua...)

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