Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Reunido o conclave com todas as formalidades da lei, e tendo o presidente declarado aberta a sessão, imediatamente frei Cosme pediu e obteve a palavra; e tirando da manga uma folha de papel dobrada em quatro partes, disse com voz segura, fazendo entrega do papel:
– Em virtude desta ordem de Sua Majestade, declaro suspensa a ação capitular e devolvida a eleição ao delegado da Santa Sé.
Disse e sentou-se.
Os vogais sentiram-se como feridos por um raio. Logo depois, levantaram-se indignados, abriram a porta da sala e quase todos saíram, abandonando o conclave.
Era com isso que frei Cosme contava. Aberta a porta, abandonado o conclave, este não podia mais reunir-se nem proceder à eleição canônica, segundo o disposto nas constituições.
Quatro ou cinco vogais tinham ainda ficado na sala, e o mais velho, dele exigiu que fosse lida a ordem do rei.
O presbítero abriu o papel que frei Cosme entregara e ficou pasmo. Não havia ordem alguma. Era uma folha de papel em branco!
– Isto é incrível! – bradaram.
– Já é tarde, meus irmãos – disse frei Cosme. – Se vossas cari-dades tivessem, como deviam, exigido a tempo a leitura da ordem, tinha eu perdido o jogo e ficado com cara de tolo. Agora, porém, a porta foi aberta, o conclave suspenso, e portanto, manda a lei que a eleição seja devolvida ao delegado da Santa Sé.
E assim foi. E o que mais admira é que frei Cosme escreveu ao núncio apostólico, residente em Lisboa, participando-lhe o ocorrido, e apresentou-lhe, por intermédio de personagens influentes na corte, os nomes dos religiosos cuja eleição desejava. E tendo continuado interinamente no governo da província, recebeu no fim de dois anos o breve de núncio com o competente exequatur régio, nomeando provincial ao padre-mestre frei José de Jesus Maria Reis, e provendo aos demais cargos no sentido dos desejos de frei Cosme.
Direis a isto que o triunfo de frei Cosme foi um escândalo e um abuso inqualificável. Boa consolação!
Mas o pior é que o exemplo do frade tem tido imitadores às dezenas. Olhai para o nosso mundo político e vereis dúzias de freis Cosmes triunfando como ele triunfou.
A segunda anedota que devo referir não se passou na sala do refeitório, mas proveio de uma eleição que ali teve lugar.
Acabava, não sei em que ano do século passado, de ser eleito guardião do convento de S. Antônio do Rio de Janeiro um frade rabugento e severo. Os frades moços, que tinham ficado não pouco aflitos com o resultado dessa eleição, passaram bem depressa a murmurar e agitar-se em conseqüência da austeridade e do zelo ativíssimo que na manutenção da disciplina mostrava o novo guardião.
Um dia, estavam os desgostosos reunidos em número de mais de trinta, e lastimavam-se com acrimônia.
– As queixas e os lamentos são estéreis – exclamou o maisexaltado dentre eles. – Devemos proceder com decisão e vigor.
– Que podemos fazer? – perguntaram os outros.
– Vamos depor o guardião.
– É uma revolta!
– Embora. Vamos todos. O rabugento velho tremerá vendo anossa atitude e o nosso ousado pronunciamento, e acabará por ceder à força. Vamos!
– Quando?
– Já. Imediatamente!
– Falta-nos um chefe. Quem falará por nós?
- Eu.
– Vamos! – bradaram os jovens frades.
– Esperem. Eu vou capitaneá-los. Prometam-me, porém, antes de tudo, apoiar a minha voz e sustentar-me a todo o transe na contenda.
– Nós o prometemos – disseram todos.
– Pois bem. Sigam-me.
Os trinta frades avançaram entusiasmados até à porta da cela do guardião. O chefe dos revoltosos lançou um último olhar cheio de orgulho e de confiança à sua tropa, e voltando-se logo, bateu com força à porta da cela.
– Quem está aí? – perguntou o guardião.
– Sou eu, ou somos nós, padre-mestre – respondeu com vozameaçadora o chefe da revolta.
Ouviu-se o ruído dos passos do velho frade.
– Venha! Venha! – gritou o chefe.
O guardião abriu a porta, e mostrando-se com ar severo e digno, perguntou ainda de dentro:
– Que querem?
– Viemos declarar que vossa caridade não é mais guardião,pois que está deposto.
– Deposto? E por quem? – perguntou o velho religioso, avan-çando um passo.
– Deposto em meu nome e em nome de toda esta comunida-de – tornou o impávido chefe, voltando o rosto e estendendo o braço para mostrar os companheiros que o seguiam, e... Quem o diria? O chefe dos revoltosos achou-se absolutamente só. Um por um, todos os seus bravos camaradas tinham se esgueirado!
Mas o jovem religioso, sem confundir-se e sem perder a cabeça com tal desapontamento, encarou de novo o guardião e disse-lhe, sorrindo:
– Ah! padre-mestre. Confesse que lhe preguei um grandesusto!
O guardião sorriu também e respondeu:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.