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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— E hoje ella está pensando em matar-se ! repetio Cândida soluçando.

Fábio passeou ao longo da sala durante meia hora, parecendo engolphado em profunda e dolorosa meditação ; parou emfim de subito ouvindo um longo gemido, que fizera estremecer a afflicta mãi.

— Que é isto ?...

— Um gemido de Juliana ! exclamou Cândida desatando a chorar; é minha filha que vai morrer... aquelle homem matou minha filha!

— Juliana não ha de morrer, disse Fábio : eu vou fallar-lhe... não me acompanhe : quero conversar a sós com ella.

E com ar grave e solemne, Fábio dirigio-se para o terraço.

XXIX.

A noite era formosa ; a lua plena e formosa brilhava no céo branco e bonançoso ; as auras sopravão brandas e suaves : o jardim era como um thuribulo immenso que enchia de deleitosos perfumes o templo da natureza.

Era pois uma noite como aquella noite de loucura, embriaguez e de conseqüente arrependimento.

E vestida de branco, também como naquella noite, mas com os seus admiraveis cabellos negros soltos e em desalinho, Juliana estava debruçada sobre o parapeito do terraço e mar com as suas lagrimas a lembraça do seu grande erro e do seu cruel infortunio.

Seus olhos estavão fitos no caramanchão, que divisava ao longe, e que por entre o pranto consideravão com uma expressão indeflnivel de angustia.

Dir-se-hia que Juliana era então como a alma de um suppliciado que em deshoras vinha contemplar o patibulo, onde ao golpe do algoz se separara do corpo que animara.

Naquelle logar e naquella hora, como devião ser tormentosas as reflexões da pobre moça !...

Ella chorava sempre, e se durante breves momentos não chorava, succedia nos seus olhos ás lagrimas um brilho infernal, que era o reflexo de um pensamento sinistro e criminoso.

A moça vaidosa revoltava-se contra a sua desgraça, e não queria por modo algum sujeitarse a ella.

E o recurso único que lhe suggeria o espirito exaltado, era horrivel.

Juliana estancava o pranto somente quando sorria para a morte.

A idéa do suicídio preoccupava-a desde alguns dias, e se a principio a fizera estremecer, acabara bem depressa por não aterral-a mais.

Juliana chegara ás consequencias fataes da sua infeliz educação.

Acreditara no mundo, contara com os gozos da vida transitória ; o bello mundo trancá-ra-lhe as suas portas, a vida não lhe offerecia mais do que um futuro negro, feio e afflictivo.

Para Juliana, viver era gozar : de que lhe servia pois uma vida em pranto, em soffrimentos e torturas ?

A sepultura era pelo menos um descanço.

Além da sepultura nada mais havia para ella.

Tinhão-lhe ensinado que a eternidade era uma illusão.

Juliana sabia demais que o arrependimento não podia regeneral-a diante de Deus.

A infeliz não acreditava que na paciencia e na humildade tinha as chaves com que lhe serião abertas as portas do céo.

Ferida pois pela desgraça , e repellida pelos homens, sem crenças religiosas, sem amor e sem temor de Deus, que não lhe tinhão ensinado a conhecer, com o desespero na terra, e sem a fé no coração, como recuaria ella ante a idéa do suicidio ?

O suicídio era pois a consequencia da educação que a misera tinha recebido.

E ás vezes a pobre moça luctava contra as falsas doutrinas que a impellião ao crime : ás vezes pensava na eternidade, no céo, em Deus; era porém tarde; a luz passava quasi imperceptivel por diante dos olhos da infeliz cega.

O onda impetuosa da descrença arrancava das mãos da desgraçada naufraga a providencial taboa de salvação que ainda podia conservar-lhe a vida.

Juliana não estava louca; era incredula.

XXX.

Quando Fábio entrou no terraço, Juliana chorava, e tanto e tanto que nem vio approximarse della o mancebo.

Fábio esteve por alguns momentos junto della, contemplando-a em tristissimo silencio, até que, sentindo que por demais se estava commovendo, e que precisava poupar as forças do proprio animo, tomou-lhe uma das mãos e murmurou :

— Juliana !...

A moça estremeceu ; logo porém voltou-se e respondeu perguntando :

— És tu, Fábio ?... que queres ?...

— Padeces muitos?...

Juliana sorrio com um desses sorrisos que despedação corações.

— Minha irmã, disse Fábio, é necessario deixar de soffrer e de chorar...

— Eu?...

— Não ha mal que não tenha remédio ; Deus é grande e omnipotente.

— Deus?...

— Sim, Deus.

— Oh Fábio! Fábio! faze-me crer... faze-me crer!... olha : o que eu tenho na alma é horrivel; mas vejo bem que muito menos o seria se eu pudesse crer!...

— Juliana!...

— Sou muito desgraçada, Fábio.

— Podes porém ser feliz ainda,...

— Nunca.

(continua...)

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